bicho solto

um céu cheio de estrelas feitas com caneta bic num papel de pão *

intermitente

bikesinto-me muito cheia de idas e vindas, mergulhada em um vaivém de sentimentos incoerentes e que não conversam entre si, como se eu fosse uma torradeira ou uma cafeteira ou um outro eletrônico qualquer que apresenta defeito intermitente e exaspera seu proprietário a cada vez que o transporta à assistência para efetuar reparo, quando vê desaparecer diante de seus olhos o defeito assinalado, tão definitivamente como se nunca tivesse existido. não tenho sabido o que fazer de mim, e isto nas melhores e nas piores horas igualmente, mas não estou perdida. sei algumas coisas a meu respeito que são importantes e sobretudo são mais do que já soube em horas passadas, e isso me conforta. e tenho olhado tudo o que há ao redor, e também o que há em mim – sobretudo isso, o que há em mim – com muito cuidado e primazia, sem querer atropelar os detalhes, pois o que me move agora é alcançar pequenas sabedorias que me permitam fazer as coisas da melhor maneira possível. sei que ainda me falta muito, e há de faltar sempre – isso é a vida, nunca estamos prontos. mas sigo neste caminho como uma estudante aplicada, com a cara enfiada nos livros da vida que me mostram algumas coisas bem bonitas e outras nem tanto, e eu procuro ficar satisfeita com tudo, até com o que me dói, afinal para algo há de servir. eu vou aceitando desde que não haja recuos – destes, eu estou verdadeiramente cansada, quero ir em frente. levando a vida possível no bolso, essa mistura das coisas boas e ruins, dos sorrisos e das rasteiras. se acontece, é porque tem que acontecer. só o que não quero é parar de caminhar.

porque metade de mim é amor e a outra metade também

maonamassinhae depois de tudo, tenho sentido este embaraço, um nó no peito e na boca do estômago. meus lábios às vezes ficam felizes e querem dizer coisas bonitas, coisas de alegria, querem cantar de novo uma canção bonita e leve, suave. mas então eu novamente anoiteço, os olhos embaçam e o coração suspira, à procura. em busca. de quê, eu me pergunto e não encontro resposta, porque há ainda tamanho mistério e tanto que apenas se insinua, que meus olhos apenas adivinham e a alma deseja, ardentemente. há uma outra que também sou eu ali, dobrando a esquina. ela me estende as mãos e aguarda, paciente, que eu seja capaz de alcançá-las. e a hora vem chegando, avizinha-se, colorida, sedutora. sei que será bonito. e também sei que não adianta pressa, porque tudo tem sua hora. as coisas vêm a seu tempo, que é nosso e também não é. então há uma parte em mim que é espera simplesmente, mas a outra é trabalho árduo e cuidadoso, é mãos à obra, na massa. moldando. querendo. fazendo ser.   acreditando de olhos fechados e mãos unidas como em oração, mas sem deixar de empunhar o facão com valentia e abrir picada. fé em deus e pé na tábua – é isso aí.

como quem ouve uma sinfonia

colareso teu silêncio é o que mais me comove. a tua quietude, esse teu recuo que me dá espaço e fica de longe admirando, como quem gosta e por gostar quer ver caminhar e ir adiante, quer ver no mundo, quer compartir a felicidade, contemplar a inteireza. eu acho isso generoso, e a generosidade é sempre muito bonita. isso é tão raro, esse amor assim sem possessividade, sem querer para si. querendo estar perto, dividir, dizer coisas e ouvir coisas e seguir a vida. sem precisar de mistura. sem precisar de títulos, de formalidades, de promessas, de compromissos. sem precisar de coisa nenhuma que não seja o que é mais valioso: o sentimento. o bonito é que isso ninguém te toma, o teu sentimento é teu. não depende do outro, não depende de permissão nem de reciprocidade. e é bonito na teoria, mas difícil é viver isso de verdade. pede um desprendimento inimaginável, uma leveza. dedilhar o sentimento, a querência, e o que ela traz. fazer poesia. engrandecer-se, pelo outro. por tudo o que te mostra, pelo que faz ver que antes não via. por tudo o que agora pode, e antes não podia. para isso estão as pessoas na nossa vida afinal, para isso elas importam: para fazer ver. apontar o dedo, tirar o véu de poeira das coisas esquecidas, das lindezas, dos detalhes. e ser assim para você, ser tudo isso, que lindo. me faz feliz.

foto: Renata Penna

eternal sunshine

pulseirasnão, eu não consigo esquecer coisa alguma e sim, é exaustivo lembrar e lembrar e lembrar, e carregar adiante tanta memória. eu sinto os meus braços cansados e a cabeça cansada e o coração o mais cansado de todos, mas eu não sei fazer diferente: eu lembro. quisera eu aprender a esquecer, saber enterrar sob meus pés os acontecidos e as coisas sentidas, pensadas, desejadas, amadas, perdidas, quisera eu saber fazê-lo mas não sei. o que foi vivido segue comigo adiante, vem carregado às vezes pesando nos ombros e outras vezes enfeitando o sorriso, e quando é deste jeito eu gosto e aceito que seja porque é bonito, mas quando é daquele eu gostaria diferente, eu queria e desejava muito aprender diferente, gostava de ver neste caso as memórias voando com o vento como amarradas em balão, leves, brincalhonas, divertidas, a sorrir. eu gostava que fosse assim, como gostava. mas assim não sei, deste modo eu ainda não sei. hoje, eu ainda não sei. mas quem sabe um dia. ao menos este aguardamento de coração aos pulos eu me permito e por isso não perco as esperanças. quem sabe um dia.

foto: Renata Penna

(des)compasso

folhinhaeu poderia ser melhor, isso sim é verdade, eu poderia ser melhor. em outras circunstâncias, entende? em outros momentos, e talvez eu até já tenha sido, acho que sim. mas por ora isso é tudo, e o digo de maneira humilde quase pedindo perdão pela impossibilidade porque sei que não é pouca, e sinto que destrói alguma coisa preciosa mas não posso evitar. você diz que não é justo e talvez não seja, mas não me sinto capaz de ser justa, não me sinto capaz de ser coisa alguma a não ser isso mesmo, o que tenho sido. não é suficiente e não corresponde às suas expectativas, já sei. mas sou humana, sou falível, sou imperfeita, e me canso. quero fugir de vez em quando, quero ficar em silêncio. quero chorar sem dar explicação. quero calar, quero ficar quieta. tenho gostado desta solitude que é diferente de solidão, e não quero sentir culpa, antes de tudo isso: não quero sentir culpa. porque tenho feito meu caminho da maneira possível, tenho dado tanto de mim, tenho feito o melhor e se não é quanto te parece que deveria ser eu lamento, ao menos nisso peço que acredite: eu lamento sinceramente. eu ficaria feliz em corresponder, em ser responsável pelas coisas boas da sua vida, em matar a tua sede, em estar presente e ser tudo isso que você deseja, mas por ora é tudo vazio, entende. este vazio que está por todos os lados pedindo enfrentamento e ele já não me assusta porque descobri que ele é inteiro e que é meu, e eu preciso olhar com cuidado, engolir o medo de uma vez só, mergulhar. e fazer dele coisas bonitas, tirar disso um algo que valha a pena. é um caminho solitário, às vezes frio. mas tem me ensinado muito, tem me trazido coisas novas e boas de sentir, tem me aproximado de mim. e isso é tão valioso, tão importante, que não posso abrir mão. tente entender, tente perdoar. mas não posso abrir mão.

feito estar doente de uma folia

maoferrodizem que a crise é uma boa coisa, um momento de crescimento, janela de oportunidade, transformação e tals, bem sei. não que não seja verdade, mas às vezes cansa. e desse cansaço vem uma pontinha de enfado, uma quase tristeza. a gente fica querendo um um respiro, um sossego, uma paz qualquer por passageira que fosse, que durasse o suficiente para fazer apaziguar a alma por um instante ainda que pequeno, fugaz. ‘a ignorância é uma bênção’, dizem. e eu, ao menos por ora, concordo. não saber certas coisas, não pedir por tantos detalhes de tudo, não desejar demasiado, não ter exagerada consciência das sutilezas e intensidades da vida, não pensar em escolhas nem tampouco em consequências: tudo isso é, por vezes, um presente. seguir caminhando, de olhos bem fechados. não saber, e não querer saber. creditar tudo a um ente superior qualquer ao qual só nos cabe agradecer ou amaldiçoar, pendurar tudo na conta do acaso, do destino, dos karmas de vidas passadas ou seja lá qual for a muleta de preferência. e então, apenas ir. ter os braços largados ao longo do corpo, a mente esvaziada de questões. não remar contra a maré e ir flutuando, ver para onde é que a onda leva. ter dentro de si este bicho fazedor de perguntas e plantador de querências, e ademais ter absoluta consciência de que os caminhos da sua vida você escolhe, de que a responsabilidade pelo que te acontece é sua e de ninguém mais, e de que não adianta querer culpar quem quer que seja porque no final das contas o acerto há de ser na frente do espelho: você com você mesmo. isso pode ser quase um castigo, pode sim.

título: da letra de Chico Buarque e Milton Nascimento / foto: Renata Penna

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