fundamento
E quer saber do quê mais? São poucas as coisas que têm mesmo essa importância toda, no final das contas. A gente aumenta muito, sofre demais sem necessidade, preocupa por bobagem, e quando vê o dia já foi, o mês já foi, o ano já foi – a vida já foi. Melhor não sofrer pelo que não se pode transformar, melhor economizar energia e vontade para o que valha mais a pena – já dizia minha avó, o que não tem remédio remediado está. A vida passa tão, mas tão rápido. Quase nem chega a durar um piscar de olhos, e é preciso agarrar-se ao instante, às delicadezas, às pequenas coisas bonitas e importantes que valem mais do que as grandes. Danem-se as besteirinhas cotidianas, as mesquinharias, para o diabo com as intrigas e com a pequenez humana. O tempo é precioso porque a vida é preciosa, e mais vale gastá-la dando risada, vendo o sol nascer, andando pela beirinha do mar, tomando sorvete de chocolate, abraçando apertado, olhando no olho, dizendo coisa bonita e ouvindo coisa bonita, cantando fora do tom, rodopiando até dar zonzeira e dançando como se ninguém estivesse olhando. Ando achando que já gastei muito tempo – bem mais do que podia, isso é certo – chorando por coisa tão besta, por tudo o que na hora parece tão definitivo e no dia seguinte já virou poeira. Chega, viu. Para mim, já deu. Já basta de andar buscando defeitinhos nos cantos do cotidiano, quando há tanta coisa boa ao alcance da mão. Já basta de perder tempo com gente pequena, quando há essa gente tão bonita do meu lado com muita vontade de caminhar junto. Que a poeira levante na estrada, eu nem vou olhar para trás – eu quero seguir em frente. Todos os dias vou querer me lembrar, daqui para frente há de ser meu mantra diário repetido exaustivamente para ver se não me esqueço - tem uma letra linda demais que diz tudo e anda rodando pela minha cabeça em boa hora: ‘poucas coisas valem a pena, o importante é ter prazer / pois tudo acaba mesmo sempre em despedida’*, chega a me dar uma coceirinha nos pés e nas mãos, uma quentura no coração e muita vontade de sorriso. É isso, afinal.
* Toquinho, em ‘À sombra do jatobá’ / imagem: Dora Batalim





