bicho solto

um céu cheio de estrelas feitas com caneta bic num papel de pão *

fundamento

E quer saber do quê mais? São poucas as coisas que têm mesmo essa importância toda, no final das contas. A gente aumenta muito, sofre demais sem necessidade, preocupa por bobagem, e quando vê o dia já foi, o mês já foi, o ano já foi – a vida já foi. Melhor não sofrer pelo que não se pode transformar, melhor economizar energia e vontade para o que valha mais a pena – já dizia minha avó, o que não tem remédio remediado está. A vida passa tão, mas tão rápido. Quase nem chega a durar um piscar de olhos, e é preciso agarrar-se ao instante, às delicadezas, às pequenas coisas bonitas e importantes que valem mais do que as grandes. Danem-se as besteirinhas cotidianas, as mesquinharias, para o diabo com as intrigas e com a pequenez humana. O tempo é precioso porque a vida é preciosa, e mais vale gastá-la dando risada, vendo o sol nascer, andando pela beirinha do mar, tomando sorvete de chocolate, abraçando apertado, olhando no olho, dizendo coisa bonita e ouvindo coisa bonita, cantando fora do tom, rodopiando até dar zonzeira e dançando como se ninguém estivesse olhando. Ando achando que já gastei muito tempo – bem mais do que podia, isso é certo – chorando por coisa tão besta, por tudo o que na hora parece tão definitivo e no dia seguinte já virou poeira. Chega, viu. Para mim, já deu. Já basta de andar buscando defeitinhos nos cantos do cotidiano, quando há tanta coisa boa ao alcance da mão. Já basta de perder tempo com gente pequena, quando há essa gente tão bonita do meu lado com muita vontade de caminhar junto. Que a poeira levante na estrada, eu nem vou olhar para trás – eu quero seguir em frente. Todos os dias vou querer me lembrar, daqui para frente há de ser meu mantra diário repetido exaustivamente para ver se não me esqueço - tem uma letra linda demais que diz tudo e anda rodando pela minha cabeça em boa hora: ‘poucas coisas valem a pena, o importante é ter prazer / pois tudo acaba mesmo sempre em despedida’*, chega a me dar uma coceirinha nos pés e nas mãos, uma quentura no coração e muita vontade de sorriso. É isso, afinal.

* Toquinho, em ‘À sombra do jatobá’ / imagem: Dora Batalim

confronto

Que eu teria feito qualquer coisa, entende. Até mesmo o que não devia. Principalmente o que não devia. Mas com um pedido teu, se fosse para você ficar, eu teria dito qualquer coisa, teria passado de todos os limites, teria sido ridícula, desprezível mesmo, teria sido burra, irresponsável, inconsequente, eu teria dado o você pedisse de mim, ainda que fosse muito. Ainda que fosse tudo o que eu tivesse para dar, ainda que depois não sobrasse um pedacinho meu para contar a história. Mas você, nem isso. Não me pediu nada, não me deu chance de rastejar, não olhou para trás, talvez nem soubesse do que acontecia. Não deu a menor importância. É o teu jeito, eu já sei. Esse teu jeito blasé de não dar demasiada importância a coisa nenhuma. De não olhar para os lados. Ao mesmo tempo ter essa doçura por todas as coisas, que faz a gente achar que você se importa, que quer muito, que gosta, que valoriza. Já não sei mais qual desses dois é você: esse cara frio que não dá bola para coisa nenhuma, que não enxerga um palmo adiante de si, ou o outro, aquele que roubou de mim o que eu nem sabia que tinha para dar, aquele cara doce e incrível, capaz de fazer o mundo deixar de girar por alguns segundos, num momento lindo. Qual desses dois é você? Me diz de uma vez, vai. Não precisa ter pena nem parar para tomar fôlego nem pensar duas vezes, não precisa escolher as palavras, só me diz de uma vez para que eu possa olhar afinal a realidade e saber o que vai ser daqui para frente, encarar as coisas como são. Eu aguento. Se já cheguei até aqui e ainda estou viva, pelo menos isso eu posso dizer com alguma certeza: eu aguento. *

*escrito em agosto de 1996

imagem: Julia Icenogle

madurez

Estou em paz, sim. Mas de uma paz que já não me ilude nem me permite descansar, falo dela como quem conta uma piada que de tão desgastada pelo tempo já nem provoca graça. Aprendi a estar em paz assim, gestando furacões. E não sofro:  o que há em mim é uma aceitação sorridente e um desejo pelas coisas intensas como hão de ser, sem meios tons. Ao menos a isso me habituei  com o tempo: já sei que muitas coisas virão e serão a um só tempo alegres e doloridas, sei que hei de sentir de uma só vez o coração a me sair pela boca e uma tristeza de quase morte, sei que há de vir tudo misturado, sem muita contemplação, sem medida e sem lógica – assim tem sido a vida. Já sei, e aceito porque aprendi a gostar. Terá sido este talvez o meu maior amadurecimento dos últimos anos: uma aceitação amorosa das tempestades da vida, e o entendimento de que sim, no olho do furacão há paz. E há um princípio de felicidade que é feito fio principiando a desenrolar do novelo – para  encompridar e ficar quase infinito, é preciso só aprender a puxar.

imagem: Abigail Halpin

cólera

Toma conta de mim às vezes uma raiva muito grande, imensa, que dói dentro do peito e me deixa num mau humor terrível. Tenho ganas de sair estapeando alguém quando isso me acontece, é mesmo de dar medo. Obviamente, me contenho – em parte porque não é de bom tom sair estapeando quem achar de nos cruzar o caminho, em parte porque bem sei que o nascedouro da raiva não está em qualquer outro, nem mesmo no que tenha feito a mim. Parece haver um lugar cativo para ela do meu lado de dentro, um lugar que em última análise é responsabilidade minha – e isso é coisa de difícil aceitação. Trata-se afinal de uma equação simples, embora um tanto dolorida: sinto raiva do que acusa em mim o engano, ou a falta, ou o que naquele momento entendo como fracasso, embora dentro de algum tempo possa compreendê-lo de outro modo. Se é assim, e não tenho dúvidas de que seja, de nada há de servir voltar-me contra quem quer que seja – a raiz do problema persiste, plantada muito profundamente em coisas que são minhas e de mais ninguém. Será talvez este um dos aprendizados mais trabalhosos de uma vida, mas nas horas difíceis procuro me consolar imaginando que terá suas compensações:  há de vir o dia em que a raiva, se tiver de nascer, nascerá minguada feito planta em solo seco, sem água. E tal qual nasceu, haverá de morrer: silenciosamente, e sem deixar rastro.

imagem: Patricia Metola 

convalescência

Todos os dias têm começado assim: acordo com a garganta seca, as pálpebras muito pesadas e o coração acelerado, quase penso que vai me escapar pela boca. Acordo pensando que você desapareceu, morreu ou deixou de existir, sei lá. Aí lembro que não, você só foi embora, mas continua aí pelo mundo, em um lugar qualquer longe de mim. A idéia me acalma um pouco, mas não muito. A dor ainda é bastante, e essa angústia permanece pelo dia todo. Trabalho, caminho, ouço as fofocas dos vizinhos, fico sabendo dos acontecimentos do mundo, vejo alguma coisa na televisão. Às vezes chego até a sorrir, um sorriso de mera formalidade, inteiramente desbotado e desprovido de alegria, mas que para quem vê de fora parece ser suficiente. E a realidade que só eu sei porque escondo bem e sei disfarçar, é um nó apertado na garganta, uma dor aguda que quase sufoca e uma vontade de enfiar a cara no travesseiro e chorar, chorar, chorar. Há dias em que não aguento e acabo me rendendo: bem no final do dia que é a pior hora, fico em silêncio, apago todas as luzes e me encolho em um canto da cama – deixo o teu canto vazio, ainda não tive coragem de ocupar o teu espaço, parece por demais definitivo – , soluçando. Pareço um cãozinho solitário e doente, abandonado num canto esquecido da rua no instante mais triste da madrugada. Nessas horas, eu te quero de volta custe o que custar. Mas a saudade me cansa tanto que acabo adormecendo, e essas noites são as melhores, durmo um sono comprido, pesado e sem sonhos, e só acordo no dia seguinte. Com o coração acelerado e a boca seca, para começar tudo de novo. Minha avó costumava dizer destas dores excruciantes beirando mesmo o insuportável: quando casar, sara. Todos os dias, quando acordo, eu me pergunto: será mesmo?

imagem: we love it

ápice

“(…) Ela havia se levantado, assim, envolta na colcha, e estava junto à janela, olhando a chuva. Aproximei-me, também olhei como chovia, por um instante não dissemos nada. De repente, tive consciência de que esse momento, de que esse pedaço de cotidianidade, era o grau máximo do bem-estar, era a Felicidade. Nunca havia sido tão plenamente feliz como nesse momento, mas tinha a sensação dilacerante de que nunca mais voltaria a sê-lo, ao menos nesse grau, com essa intensidade. O cume é assim, claro que é assim. Além disso, estou certo de que o cume dura apenas um segundo, um breve segundo, uma centelha instantânea e sem direito à prorrogação.” *

a grande loucura é a gente passar a vida querendo chegar lá uma outra vez: ao cume.

* trecho de “A Trégua” (Mario Benedetti) / imagem: Estrela Santos