Comer, Rezar, Amar

by renata penna

Vou dizer, eu até que gosto de filminhos água-com-açúcar, aqueles roteirinhos leves, bobinhos, um tanto lacrimejantes, daquele romantismo batido que só de ver a primeira cena, você já sabe onde é que tudo aquilo vai terminar. Não mudam a vida, não vão pra lista dos dez mais, mas ok, servem pra gente desligar um pouquinho, relaxar, passar o tempo. Se fizerem muita questão, até confesso que já vi ‘Titanic’ umas tantas vezes, e sempre choro no fatídico diálogo  ‘you jump, I jump’. Pois é.

Mesmassim, achei “Comer Rezar Amar” um pouco demais. Clichês demais, obviedades demais, previsível demais, lugar comum demais. Chega uma hora que cansa, entedia. Você fica esperando alguma coisa além, e continua tudo naquele papinho filosófico de botequim, pisado e repisado. Sabe quando a gente exagera na sobremesa, e levanta da mesa meio ‘empapuçado’? Então.

O filme é uma adaptação do livro homônimo, relato meio autobiográfico, meio auto-ajuda, ‘mezza mozzarela mezza calabreza’, da americana Elizabeth Gilbert. Em resumo, conta a história de uma mulher que sente um vazio incômodo na vida, quer sair em busca sem saber de quê,  vê seus relacionamentos amorosos fracassarem um após o outro e, perdida, resolve sair viajando pelo mundo pra se encontrar. Vai pra Itália, para a Índia, para Bali. Come, passeia, medita, aprende, encontra-se e termina… apaixonada, mergulhando em um novo relacionamento, nos braços de um novo homem. Mudou o quê, você se pergunta? É, pois é, então.

Parece que a idéia era dar à trama ares de grande reflexão sobre a vida, pincelando a alma feminina, seus sentimentos, suas buscas, ao contar a história de uma mulher que se perde pelo mundo para se encontrar. A premissa até que é interessante (aliás, pra quem quiser ver um filme que parte de uma premissa semelhante mas chega muito além, recomendo “O Expresso de Marrakesh”, com Kate Winslet), mas a realização não deu conta, na minha humilde opinião. Ao invés de contar uma jornada real de autoconhecimento, aprendizado e descoberta, o filme mergulha sem dó nem piedade nos estereótipos e abusa das frases feitas, a tal ponto que em determinado momento você se convence de que as personagens andaram engolindo um daqueles livretinhos ‘minutos de sabedoria’, pra depois sair cuspindo seus conselhos pseudoespirituais por aí. O resultado é uma mesmice que nem mesmo o carisma de Julia Roberts (linda, como sempre, claro) consegue sacudir. Isso, sem falar no portunhol de arranhar os ouvidos de Javier Bardem, interpretando um brasileiro que, é claro, aparece no pedaço ouvindo bossa nova, como todo brasileiro em filme americano.

Enfim, sejamos justos: não é de todo mal. A primeira metade do filme ainda serve pra descansar a cabeça, dar uma risadinha aqui e outra ali. Da metade pra frente, aí é só tédio mesmo. Em todo caso, vale pra sair do cinema e comer uma pizza. Só não vá esperando encontrar o sentido da vida, ou pode sair do cinema com a sensação de ter comprado gato por lebre. Ou, digamos, Paulo Coelho por Dalai Lama.

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imagem daqui