que seja doce

by renata penna

Agora que já faz algum tempo que você existe em mim – à minha revelia -, tenho aprendido a lidar melhor com a raiva. Sim, eu confesso: às vezes me enraivecia um bocado ter você me bagunçando por dentro, reinventando os significados das coisas, dos acontecimentos e das palavras, sem deixar um fiapo qualquer de uma coisa conhecida, para que eu pudesse me agarrar e sentir um resto de segurança. Eu gostava um pouco da paz que eu sentia antes, era uma paz um tanto vazia, mas ainda assim era paz, era algo familiar, e eu gostava. E o reviramento que você me trouxe, esse às vezes me assusta, eu ainda não sei direito me reconhecer nessa pessoa nova que você veio querendo me ensinar a ser. Ela é bonita, eu sei, é tão cheia de delicadeza e intensidade, e nas madrugadas em que eu custo a dormir ela me faz companhia e me fala de coisas tão bonitas, mas ainda assim resta um fiapo de medo. É só um resto, e eu nem sei dizer direito de que – talvez seja o abandono, deixar para trás de uma vez a menina desengonçada, assustadiça. Essa que você andou me segredando que eu não sou mais, é que eu fui por tanto tempo que me acostumei a ser.  Então tem calma, porque eu vou desacostumar, eu quero muito ser desse jeito novo, eu gosto da idéia, eu vou. Só não me apressa, tem paciência. Eu só sei andar no meu tempo, eu tardo mas chego lá. E sem raiva. Ah, isso eu te prometo: sem raiva. *

(* escrito em novembro de 1995)

imagem: Abigail Halpin