revés

by renata penna

Talvez a isso mesmo estejamos condenados, impiedosamente: um arremedo de qualquer coisa que já não existe, uma sombra ridiculamente pálida do que já foi um dia, um faz de conta barato e mal acabado, inútil. É patético, mas antes de tudo, é triste. Pergunto-me constantemente, em obstinada indagação mental, se há mesmo de ser assim,  com tamanha tristeza e desencanto. Forço-me a encontrar uma resposta que não se revela nunca, e me causa um certo enjôo pensar tanto a respeito, um mal estar generalizado, por isso me forço a esquecer: faço coisas sem importância, encho meus dias de palavras tolas e desnecessárias, invento obrigações sem sentido, canso-me deliberadamente para que quando chegue a noite eu possa enfim descansar, com os braços largados ao lado do corpo e a cabeça vazia de pensamentos. Mas o coração, ah!, o coração. Este é mais ardiloso e não se presta a tais enganos, e apesar de tudo sente. A dor persiste. O que me assombra é imaginar que possa ser assim por um tempo grande demais, dolorido demais, exasperante demais. Estou perigosamente perto da gota d’água que transbordará o copo, sei disso. E  não sei o que virá depois – mas me mete muito medo.

imagem: we love it