timidamente

by renata penna

Venho fazendo um grande esforço para manter as aparências, sabe? Acho até que tenho feito um bom trabalho: toda a gente ao redor sequer se dá conta de que estou quase à beira da morte, de tanta dor. Diariamente, dedico-me com muito cuidado a ouvir sobre amenidades, sorrindo um sorriso calculado que me fere por dentro mas não deixa transparecer qualquer traço de amargor. Faço as mesmas coisas todos os dias, porque o tédio me faz bem: é onde me resta alguma segurança, ainda que pouca. A hora mais temida do dia, em geral, é o momento de entrar no elevador para descer ao térreo e sair à rua: é que sem aviso ou escapatória posso ser forçada a entabular uma conversa sobre o clima ou outra pequeneza qualquer, e tenho me sentido especialmente despreparada para diálogos deste tipo. Mesmo assim, aos poucos vou melhorando. Um dia desses, fiquei particularmente orgulhosa de mim: conversei até bem alegremente sobre o filho da velha senhora que vive no apartamento de baixo – a conversa deve ter durado a quase eternidade de cinco minutos, tempo durante o qual cheguei a fazer-lhe perguntas com fingido interesse. É uma vitória, afinal. Dizer mais de meia dúzia de palavras sem me ver tomada por um choro convulsivo capaz de me tirar o fôlego, o rumo e a noção das coisas é algo que há não tanto tempo se me apresentava como um desafio extraordinário. É bem verdade que a dor persiste, escondida nos pequenos cantos cuja existência faço de conta que não percebo, em um esforço de sobrevivência. No entando, não sei bem porquê, mas sinto que a cada dia doerá menos. Amanhã, por exemplo – pressinto que será um dia bom. A senhora do andar de baixo sai de casa às dez da manhã, e pretendo sair no mesmo horário, a ver se me causa o mesmo bom efeito da outra vez. Depois dou uma volta, passo na farmácia cujo atendente está sempre cheio de sorrisos e dá bom dia a todos os passantes. De volta, já bem perto de casa, quem sabe arrisco parar na escadaria da esquina, de cujo topo se vê um por do sol de encher os olhos. Aos poucos vou voltando a achar gosto nas coisas bonitas, bem aos poucos, mas não importa. Daqui a alguns meses, se eu tiver sorte, você cruzará comigo na rua e não me reconhecerá. Se acontecer assim, terei enfim conseguido. De grão em grão.

imagem: Abigail Halpin