soluço
by renata penna
“que fazemos então”, perguntou-me, e eu fiquei calada. Parecia ser um daqueles momentos em que por mais que se faça ainda não se faz o suficiente, e quando é assim o silêncio é um bom caminho, talvez mesmo o único. E quando se tem um pouco de sorte, chega até a curar a ferida e trazer consolo, fazer cicatrizar. Então eu silenciei. Ficamos os dois ali com um pouco de frio, sentindo o vento balançar os cabelos e arrepiar pelo meio das costas até o pescoço. O dia foi morrendo assim, aos poucos. Eu e ele olhávamos para frente, eretos e sem medo, um pouco solenes, sabedores da beleza escondida nos cantos mais doloridos. Lá bem longe parecia tudo tão calmo, apaziguado feito sono de criança depois de um dia de passeio. Uma vida boa. Eu tive muita vontade de dizer as palavras que vinha guardando, quase juntei coragem para gritar bem alto. Eu não queria perder a esperança, ainda mais em um dia tão bonito – aquele não era um dia dado ao desespero, não era. Mas enquanto eu pensava essas coisas quase querendo sentir uma ponta de alegria, ele se levantou sem dizer nada. Fez um gesto mecânico tirando meu cabelo das costas, como tinha se habituado a fazer. Sem dizer nada. Entre nós dois ainda o silêncio, não cabia outra coisa. Ele perdeu os olhos lá no longe silencioso, foi para algum lugar que eu desconhecia, e até hoje não sei qual é. Parecia que não voltava mais e eu tive medo, um medo danado de ficar sozinha em um dia frio, mas ele pôs em mim os olhos mais uma vez, e quase sorrindo deixou escapar a palavra amor.
ps: uma singela homenagem à paulicéia que eu amo desvairadamente, aqui.
imagem: we love it
