o leite derramado sobre a natureza morta

corrente“Agora vou embrulhar minha angústia dentro do meu lenço. Vou amassá-la numa bola apertada. Vou levar minha angústia e depositá-la nas raízes sob as faias. Vou examiná-la, pegá-la entre meus dedos.” *

demoradamente, eu a olho. entreolhamo-nos. com cuidado, com algum pesar mas também com alguma coragem – estamos crescidas. ela brinca de se esconder por detrás dos sentires que não sei nominar, se espalha por entre os meus dedos, corre-me nas veias muito apressada. para ela, tudo é urgente. e eu a sinto de modo inteiro, com cortante profundidade, também com doçura. somos resilientes. somos sobreviventes, eu e ela, persistimos. eu a carrego comigo e ela me pesa nos ombros mas eu a reconheço, ela é minha. é familiar, sei bem de que se trata, de que é feita. ela pertence a mim e isso é de algum modo bonito, embora esta boniteza eu não saiba explicar. mas é coisa valiosa. eu e ela nos conhecemos há muito, de longa data. e embora eu às vezes me esqueça do que sei sobre ela se estou distraída, sei que ela também me conhece assustadoramente, e por dentro. não guardamos segredos, não preservamos coisa alguma, entregamo-nos simplesmente. e ela vem assim: às vezes domesticada, feita de delicadezas; outras vezes xucra e selvagem a me dar coices no peito e na boca do estômago. quanto a mim, não me importo porque não posso me importar: ela sou eu. ela, a minha angústia, também sou eu.

foto: Renata Penna

* in: ‘As Ondas’, de Virginia Woolf

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