fisgada

corrente

como a dor de uma amputação, às vezes é assim. um sentido agudo de falta, uma saudade sem que se saiba exatamente de quê, um suspiro profundo, uma pontada bem no meio do peito. como se o membro amputado gritasse em silêncio, como se isso fosse possível, e de alguma maneira é. e apesar de, é preciso seguir adiante. e começar um dia novo, e ter forças para levantar-se da cama, calçar os chinelos, lavar os cabelos, fazer o café, pagar as contas, respeitar os sinais fechados. tantos. e quando o desejo é render-se ao desespero primal, a este instinto puro e simples que pede desistência e rendição, quando. é este o tempo: quando. há de fazer-se de novo, e de novo, e de novo. novas manhãs de céu cinzento, novos amargores nos cantos da língua, novas dores de garganta pelas coisas não ditas, novos pesadelos às três da manhã. as impossibilidades escondidas, enterradas bem fundo em meio a um silêncio todo feito de covardia e incapacidade. e a eterna fantasia do recomeço. só mais uma vez, amanhã talvez. *

* escrito em março de 2013 / foto: Renata Penna

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