saideira

choro

eu hoje tive medo, muito medo, não foi um dia bom. logo cedo acordei disposta a fazer o que fosse preciso, desafiar as probabilidades e sair de casa com um sorriso enfeitando o rosto, um sorriso bem aberto mostrando os dentes sem qualquer vergonha. mas ao sair de casa ouvi tocar no vizinho a nossa música, aquela da primeira noite. engoli em seco e me custou muito reencontrar a coragem, mas tapei os ouvidos com as mãos e entrei bem rápido no elevador quando a porta se abriu. estava vencido o primeiro desafio do dia e fiquei bem satisfeita, mas então saí à rua e antes mesmo de dobrar a esquina esbarrei num rapaz muito alto que cheirava ao teu perfume, aquele que eu comprava no centro e era imitação de alguma coisa cara que eu não conhecia. o coração disparou, temi um desmaio ou um piripaque qualquer mas fiquei firme, prendi a respiração e andei a passos largos até cruzar a rua. fiquei bem contente comigo, mais um degrau, pensei. fui andando de nariz empinado sem olhar para os lados, mas não me apercebi do trajeto que fazia, e desavisadamente parei em frente à doceria, aquela do nosso primeiro encontro e da primeira briga. as pernas bambearam, cheguei a sentir a vista turva, quase chorei de desespero, mas engoli as lágrimas e dei as costas, fui andando depressa para o outro lado, mesmo sem saber direito onde aquela rua ia dar. quando vi estava perdida – olhava para os dois lados e não reconhecia coisa nenhuma, toda a gente que passava apressada era estranha e não me dava confiança, um rapaz tocava um instrumento exótico próximo à esquina, um som irritante e insistente. fui sentindo um embrulho no estômago, um medo insuportável sem saber de quê. corri, corri muito, como se corresse pela minha vida. perdi o ar, tropecei umas tantas vezes, esbarrei em uma porção de gente e quase que me atropelam ao cruzar a rua. não pensei para onde ia, e quando dei por mim era ali mesmo: a porta do teu prédio, teu prédio antigo, aquela escadaria de corrimão engordurado, a portaria cinzenta de pé direito alto, imponente. olhei para cima e tentei achar o teu andar, quem sabe até te ver de relance na janela, mas o sol me turvava a vista e eu não enxergava coisa nenhuma. sentei no primeiro degrau, coloquei a cabeça por entre os joelhos, e chorei. chorei. por que é que você me bagunçou tanto, assim por dentro, assim irremediavelmente, por que é que você não me deixa – é o que eu me pergunto todos os dias.

imagem: Patricia Metola
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