em seco

meninatriste

o quarto estava escuro e silencioso, e lá fora a noite chovia. preguiçosa, indolente e vagarosa. de um jeito doído, como quem chora. ela encostou a cabeça no vidro, deixou escorrer o cansaço. das coisas todas, da vida. engoliu um suspiro profundo, magoado. suspiro de saudade. desejo, quem sabe. perdeu os olhos na casa vizinha, as janelas fechadas. pensamento foi longe. distante. lá nas coisas possíveis que a imaginação alcança. pensou em tudo o que podia ser e não era. quis ter diferente. quis ser de outro jeito, viver outra história. olhou os próprios pés: pequeninos. encolhidos na sandália puída, tristonhos. calados. mais um suspiro. dolorido, ressabiado. quis gritar, mas temeu ferir demais o silêncio. engoliu o grito, junto com a dor. e a tristeza, que tinha o gosto mais amargo de todos. desviou os olhos para a cama vazia, o lençol esticado. quis morrer, só um pouco. só por hoje. depois, quem sabe, quereria voltar. mas às vezes é isso: a gente precisa morrer um bocado, pra seguir vivendo.

imagem: Patricia Metola

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