sem mentir pra você

irmkar10set13pos-16

ando me sentindo muito cansada. cansam-me as coisas mais cotidianas: o barulho repetitivo do farol da esquina de baixo a trocar suas cores, o latido do cachorro do vizinho da esquerda logo pela manhã, os insetos na lâmpada ao cair da noite, o calor excessivo e a chuva fina da madrugada. bem sei que este cansaço nada mais é que reflexo de um outro, mais enraizado e difícil de mensurar: estou cansada de nós. enfadada, mesmo. mas no silêncio dos dias em que como de costume você não me escuta, eu talvez por covardia, autopreservação, piedade, generosidade ou o que seja, direciono o cansaço para todas as outras coisas, pequeninas mas ridícula e tediosamente irritantes. desta forma adio o inevitável, e deixo para amanhã a decisão que não me sinto capaz de tomar hoje. mas confesso: o que me assusta, e por isso procuro mesmo não pensar muito a respeito embora a ideia me persiga e surpreenda nos cantos mais inesperados do dia, angustiosamente, é que enquanto espero, enquanto faço de conta, enquanto desvio a atenção do que realmente é para fingir uma outra coisa qualquer, vou represando o sentimento. e ele, veja bem – além de não ser pouco como os meus nunca são, é também muito misturado, o que o torna um tanto incontrolável e por isso mesmo perigoso: tem algo de raiva, muito amor, alguma decepção e um tanto de desespero, rasgos de desejo e acima de tudo ele, o cansaço. um cansaço cinzento e dolorido. cansaço zombeteiro, a rir-se de mim todas as horas do dia. *

* escrito em dezembro de 2007

foto: Renata Penna

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