a casa onde ninguém vai

buziosrasaemanguinhosMINI-117

é que às vezes eu tenho medo das respostas que a vida me traz. se eu ficar bem quieta e concentrada, se eu prestar atenção, eu sei que a vida me diz. em silêncio e de um jeito que só pra mim há de fazer sentido, ela me diz. diz o que eu preciso saber, nem menos e nem mais, eu sei. ela sempre é desse jeito comigo, certeira. vem devagar, vem serena, passa a mão sobre a minha cabeça e quando estou quase adormecida, ela diz. mas às vezes eu não sei se eu quero saber, é isso: eu não sei se eu quero saber. tem horas que eu penso e fico mesmo na dúvida se eu não prefiro seguir vivendo do jeito que dá, na ignorância passiva, na calmaria bovina, naquela placidez idiota de quem não sabe pra onde vai e nem sabe se vai ou se fica, e nem se incomoda pela falta de mudanças porque nem sabe que podem haver mudanças, periga desconhecer até a palavra e o conceito. no fim, talvez seja mais fácil. menos sofrido. mais confortável. porque eu também tenho medo. entende? eu também tenho medo. não, eu não sou tão forte nem tão segura nem tão sabedora de todas as coisas quando você imagina que eu seja. eu faço parecer, vezemquando. mas na hora do vamos ver, tem um medo aqui dentro, um medo gelado e cheio de dentes. uma paúra, mesmo. são tantas inseguranças, são tantos poréns. são tantas coisinhas miúdas ou nem tão miúdas assim que todos os dias eu varro pra baixo do tapete porque dói, dói demais deixar que elas me peguem no braço. tem horas, eu confesso, que eu só queria passar em branco. só isso e nada mais: passar em branco, despercebida. que olhassem para o outro lado e me deixassem aqui, encolhida nesse canto poeirento onde o medo me alcança. tem dias que tudo o que eu peço quando me levanto da cama é que todos aqueles que por ventura cruzarem o meu caminho estejam distraídos em excesso, que não se dêem conta das minhas pequenas coisas ridículas, das minhas risíveis vergonhas. que as coisas não tenham tanta importância, que não signifiquem tanto. que passem, que me esqueçam. sabe como é? entende do que eu falo? esse instante assombroso em que a gente teme a resposta que a vida pode dar? quando a gente tenta aquietar a pergunta, sussurra baixinho a interrogação que não cala, abraça os joelhos encolhido num canto e até se permite acreditar que talvez, talvez, se pudermos ficar muito quietos, já quase como alguém que morreu e apenas ainda não se deu conta do fato, talvez, quem sabe a resposta não venha. só dessa vez. só por hoje, só por ora. até que amanheça um novo dia e quem sabe alguma coisa boa, alguma alegria por pequena, seja possível de novo. *

( * escrito em setembro de 2000)

foto: Renata Penna

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s