escorre entre os meus dedos

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e se ao menos eu não tivesse te virado as costas, quem sabe o que poderia ter sido, bonito, inteiro, suave, frenético, uma história cheia de cor e som e fúria, poderia ter sido quase tudo mas não foi coisa nenhuma, porque eu fugi, eu corri, eu fui para outro lado, alucinadamente, como quem teme pela própria vida e de certa forma era isso, eu não queria morrer, e se eu tivesse permanecido, se eu tivesse insistido em estar ali, em olhar tudo aquilo que você queria me mostrar e eu relutava em aceitar que pudesse existir, se eu tivesse esperado um pouco mais, se eu tivesse te abraçado como algo em mim queria e queria tanto eu teria morrido, algo em mim, entende, uma parte minha que pode até não ser tão importante, mas eu ainda a enxergo como se fosse tudo o que eu sou, e por isso tenho medo, é, eu digo em voz alta, foi por medo, paúra mesmo, foi covardia pura e simples, temor daquela coisa nova que se avizinhava e eu não sabia o que seria, e o desconhecido mete medo,  o que a gente não sabe assusta e põe pulgas atrás da orelha e macaquinhos no sótão e aquela coisa toda, e por isso ao invés de ir a gente fica, a gente dá meia volta e se agarra em desespero ao que já conhece, a aquele lugar onde a gente já se sente seguro e protegido, ainda que seja pouco, ainda que não seja nem ao menos bom, meu deus como tem horas na vida em que a gente é covarde e enterra na terra a cabeça feito avestruz ao invés de aceitar que a vida é isso, é abismo, é salto no escuro sem pára-quedas, é queda livre e é frio na barriga, ah se eu tivesse ido ao invés de dar a volta, se eu tivesse espiado lá adiante ao invés de baixar a vista, ah se eu tivesse gritado bem alto fazendo eco ao invés de engolir em seco e em silêncio, ah se eu tivesse estendido a mão e agarrado a sua para não soltar nunca mais ao invés de me encolher num canto e fechar os olhos para não ver você indo, desaparecendo, desistindo, tua sombra ficando pequena, ah, se eu tivesse, teria sido tão bom. poderia. eu acho. quem há de saber?

(* escrito em abril de 2001)

foto: Renata Penna

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