um dia eu volto, quem sabe

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mas há esse dia, essa hora, esse instante, esse recorte de tempo em que  a gente cansa, e eu cansei. cansei de fato, cansei inteira e fervorosamente e com cada pedaço meu que ainda respira e suspira e transborda este cansaço que por ora me define e passa a quase ser quem eu sou. olho pela janela, vejo os carros no farol e os passantes apressados, vejo as folhas das árvores dançando ao sabor do vento, vejo o cachorro vira-lata andando em círculos ao redor do poste da esquina, respiro a poluição desta cidade que me viu nascer e tudo o que posso pensar é isso: quero ir embora. sem saber de onde e sem saber para onde, mas há algo aqui que é preciso abandonar. então decido que preciso de uma despedida, de um adeus com ou sem lágrimas, de um abraço apertado, de um bilhete ou um recado qualquer, algo que encerre esta parte da vida como quem encerra um capítulo de livro, escolhendo as palavras corretas e precisas de modo que se prenda o suficiente o leitor para que não abandone a história antes que termine. porque as coisas terminam, têm fim, têm encerramento, e é preciso prestar atenção. não se termina algo importante, simplesmente. encerra-se, com certa solenidade. fechando as pesadas cortinas de veludo, apagando a luz. de qualquer maneira, é preciso fazer algo mais do que simplesmente virar as costas e seguir. disto careço: da despedida. para que então eu possa abrir o vão entre os dedos e desprender-me das coisas que já não são para mim o que um dia foram, já não carregam consigo a alegria como um dia foi. resta-me angariar forças sem saber onde posso buscá-las, porque as minhas sinto mesmo que já se esgotaram e isso me assusta. sim, devo dizer: além de cansada, estou também um tanto assustada. pela inevitabilidade das coisas, e pela forma avassaladora como se apresentam, e como tomam conta de tudo o que há em mim. fico vítima de um certo torpor, uma sensação paralisante de dúvida, um amargor na garganta que se assemelha à angústia do paraquedista no instante exato antes do pulo, quando percebe que já está lá em cima e tudo está preparado e portanto não há mais volta, e não há outro meio de seguir com a vida que não seja pulando, aceitando o risco, aceitando a morte possível, a perda, o nada. ali estou eu, prendendo a respiração. e isso não pode durar muito.

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Um pensamento sobre “um dia eu volto, quem sabe

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