como eu não sei rezar

cotidiP-17

há uma dor aqui e ela não é invenção nem devaneio, não é feita de delírio mas de pequenas concretudes exasperantes que me roçam as estranhas e impedem descansar. há uma dor aqui e ela é real e de algum modo palpável, eu quase posso pegá-la por entre os dedos e sentir suas ranhuras, sua textura viscosa, seu toque gelado e incômodo que me assombra por dentro, para depois rir-se de mim como se houvesse graça em quitar a paz a quem não queria outra coisa. há uma dor aqui e ela é indiscreta, barulhenta – eu a ouço enquanto corre pelas minhas veias deixando um rastro de agonia e um latejar agudo e insistente no pulso, muito mais premente do que o ritmo adocicado e suave dos dias serenos que vieram antes, em um tempo do qual já não consigo me lembrar sem algum esforço. há um dor aqui, e ponto. e vírgula. há uma dor aqui que não se termina, ao contrário, demora-se. tarda. arde. há uma dor aqui e apenas por isso é preciso encontrar forças para sorrir-lhe por entre os ais, é preciso acolher. porque há uma dor aqui é preciso vivê-la, aceitá-la, investigá-la por dentro para conhecer seus descaminhos, seus gritos e seus silêncios. porque há uma dor aqui é preciso conhecê-la, amigar-se com ela, sentir-lhe o gosto, o ritmo, saber bem a que veio, a que se presta, de que é feita. porque há uma dor aqui e ainda que eu escolha fechar-lhe os olhos, ou lhe dar as costas, ou prender a respiração à espera de um momento em que ela não esteja mais, ela permanece. ela insiste. ela aguarda impávida, impassível, definitiva. ela zomba de mim que lhe tento escapar. ela não desiste de mim, porque me deseja como poucas vezes fui desejada por qualquer outra coisa ou indivíduo. há uma dor aqui, amigos, percebam: há uma dor aqui. há uma dor aqui e ela chega até onde a vista não alcança mais, e é por isso que eu me esforço dolorosamente para mudar o tema da conversa, para falar de outra coisa, para fazer piada como se esquecer fosse por ora possível, apenas por hoje para amanhã quem sabe, caso nasça uma outra esperança destas que não morrem nunca. mas há uma dor aqui, e ela não vai a lugar nenhum. quando me volto, ela ainda está. ela me ocupa por dentro. ela me sabe e me reconhece sem um instante de dúvida, ela serpenteia pelos meus cantos e brinca comigo de esconder, até que enfim eu me renda. até que eu deixe cair os braços e repouse, inerte, para que ela faça aquilo a que se propôs, para que opere em mim a mudança que veio sonhando, desde quando passou a existir. há uma dor aqui e ela somente é, e a mim resta-me ser também. junto dela, de braços dados. se é o que me cabe, por ora.  

foto: Renata Penna

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