gigante

foticosP-36

pois penso que o que me habita agora, esta maneira nova e portanto desconhecida de ver o mundo e de sentir as coisas, as pessoas, os fatos e tudo o que há para ser sentido, tudo isto é de uma grandeza tamanha que me mete medo. encolho-me, na esperança de algum protegimento impossível. quero ficar criança de novo, caber inteira em um colo de mãe, voltar ao ventre ou qualquer coisa semelhante que me evite o perigo, que me afaste o susto e a falta de ar. dói-me a cabeça como me dói sempre que não dou conta das intensidades com que a vida me atropela, e tudo o que há em mim e que um dia conheci e reconheci como parte minha, como definição daquilo que eu dizia ser eu ou que diziam por mim, cresceu de repente, sem aviso e sem licença, sem permissão. e transformou-se de tal maneira que há muito na mistura que não conheço, e por isso preciso ter paciência e cautela. faço um trabalho de artesã, toco cuidadosamente e com atenção o que há de novo reconhecendo-me por dentro com a ponta dos dedos, como cego que procura aprender no escuro a locomover-se em um espaço que desbrava pela primeira vez. estou me apalpando por dentro. estico as mãos e o rabo de olho de modo a alcançar os cantos mais escondidos, e uma parte minha sente saudade de um tempo de bem-aventurança que não sei se vivi ou se inventei, mas que de um jeito ou de outro persiste em minha memória agarrado como mancha de gordura depois de seca, impossível de esvaziar-se da roupa e da alma. houve mesmo um tempo em que as coisas eram mais fáceis, mais óbvias e estavam mais ao alcance da mão? talvez tenha sido apenas um faz de conta, uma história que inventei em noite de lua cheia para entreter a mim mesma, para me libertar de algum medo mais insistente ou de alguma tristeza surrada que se negasse a abandonar-me e deixar em paz. seja como for, a vida é essa, por ora, e o que tenho de verdade é essa grandeza que não sei nomear, este algo que transborda e me sai pelos poros, pelas pontas, que derrapa nas minhas curvas, este não sei quê que transpiro pela pele quase fisicamente e que tem um odor desconhecido, algo misterioso e que ainda não sei classificar como bom ou ruim, mas nele de alguma forma me reconheço. há ali algo muito meu, e que embora em parte me pertença, escancara-me sem que eu permita e me põe em carne viva mas ao menos, viva. não tenho missão a cumprir nem explicações a dar e isso me liberta, embora eu não saiba ainda o que fazer desta liberdade repentina. uma liberdade nova que eu desconhecia, diferente daquelas das quais me alimentei sempre por crença e filosofia, e ela me assusta um pouco. mas estou também muito enamorada. irresponsavelmente – como sempre o são os enamoramentos. e com gratidão. sim, com gratidão.

foto: Renata Penna

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