a vida que ardia sem explicação

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saí descalça logo pela manhã, o sol mal tinha se animado a nascer e eu já estava cantarolando do lado de fora do portão. os pés desnudos roçando carinhosa e cuidadosamente o asfalto ainda um pouco gelado. procurei pela tua presença na rua adormecida – não era dia de trabalho -, mas não encontrei. nem o teu silêncio havia ficado, até os teus vazios você levara consigo, amarfanhados no bolso de trás da calça, aquele onde você guarda as coisas mais importantes. ah, os teus vazios. eu gostava deles, porque se afinavam com os meus. e os teus desafinos que também eram meus, eram nossos e eu havia aprendido a gostar, ao longo dos anos. embora às vezes eles doessem. vezes demais, talvez. e os anos, bem, não foram tantos assim, mas confesso que por ora parecem ter durado uma vida inteira. uma existência à parte onde as coisas eram bonitas e se encaixavam corretamente, como quebra-cabeças de muitas peças juntado aos poucos na mesa grande da sala. nós fomos nos encaixando aos poucos, o que era meu e o que era seu. e agora eu ali, solitária na sarjeta ressequida  da rua deserta da cidade esquecida sem chuva, enquanto você, sabe-se lá onde. algum lugar bem longe, distante, algum lugar onde eu não alcance. e aqui dentro, apesar da seca, chove. desci a rua, calculando os passos. foram mais de cem, até onde contei. depois me perdi. quando cheguei à esquina, vi um vulto bem longe. pensei que me acenava, talvez até me sorrisse. delírios. desejos. saudades. essa coisa toda. acenei com a mão, só para fazer de conta. e senti uma coisa boa. não sei bem dizer o que, talvez esperança. talvez um princípio de alegriazinha insistente, daquelas que se recusa a abandonar o sujeito, mesmo quando a vida toda dá o contra e diz que não, que não pode ser, que já não é. que já não é. eu sei que já não é. mas talvez ainda possa ser, sabe. não você aqui, mas uma outra coisa. uma nova história rabiscada desde o início em folha branca, e de novo a segunda pessoa do plural com um complemento diferente. uma outra mão juntando os dedos com a minha. um outro cabelo bagunçado para eu me enganchar nas noites compridas, de tédio, de suspiro. um outro sonho, sonhado desde a primeira letra. pareceu-me que podia ser, de repente. sei lá porque, mas foi a certeza que me invadiu: há de ser. novo, de novo. diferente. e aí o sol veio chegando, alegórico. todo sorridente, querendo me lembrar que sim. que sim, meu deus. sim. aí eu, muito satisfeita, olhei bem direto para o sol sem cerrar os olhos nem aparar com a mão. e disse baixinho, bem baixinho, obrigada.

foto: Renata Penna

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