coração, desejo e sina

foticosP-102

achei uma certa graça em perceber que todos os detalhes que me causaram, a vida inteira, estranhamento em relação à minha própria pessoa, são hoje os meus traços pelos quais tenho mais estima, que mais me agradam quando me olho ao espelho tanto por dentro como por fora. os lábios carnudos, o nariz largo, os dentes da frente tão chamativos, os olhos amendoados, os cabelos desalinhados em rebeldia, a cadência fora do ritmo, o jeito enviesado de pensar as coisas, o diálogo comigo mesma que não cessa nem quando eu desejo – e eu quase nunca desejo, se quero ser sincera devo dizer – , o hábito (um pouco irritante, admito) de perder-me em elocubrações impossíveis de serem compreendidas por outrem, a risada inconveniente na hora em que não deveria ser, o silêncio comprido diante das coisas desinteressantes, as palavras em borbotões diante das coisas muito interessantes, as mãos estabanadas a desarrumar o mundo numa constante, a vontade de ir embora o tempo todo de todos os lugares, o amor pela inconstância das coisas, a curiosidade pelos detalhes escondidos do cotidiano, a incapacidade de seguir rotina e fazer roteiro, essa coisa de ser estrangeiro o tempo todo e por todo canto e ao mesmo tempo tão habitante de si, desse corpo que é meu, dessa alma que me é e eu sou, desde que me entendo por. isso tudo que eu amo e hoje posso dizer de boca cheia: que eu amo. isso tudo sou eu, e um tanto mais que se recusa a caber. ah, que bom que é.

foto by Chiara, a pimenta-caçula

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