das areias pontudas

dia3janeirox-16

“para me livrar da dor, escrevi”*

tem sido custoso escrever, tem sido mesmo penoso e difícil. esforço-me bastante, por instinto de sobrevivência e por desejo, um desejo infantil de que tudo volte a ser fluido, bonito, desprovido de dor. fico querendo que as coisas se transformem de algum modo, que algum milagre aconteça – deve ser a época do ano, esse sentimentalismo escorrendo por todos os cantos, onde quer que se olhe. mas essa magia, veja. eu a quero todos os dias. eu anseio por ela. ela me visita nos sonhos mais demorados, aqueles que ao acordar ainda me confundem por alguns minutos, querendo me escapar da mente e brincar de braços dados com a minha realidade. eu quero a minha delicadeza de volta. eu quero outra vez a suavidade que me escapou pelos dedos sem permissão. o meu bater de asas de pássaro livre, em vôo sem paradas e sem destino, pela simples alegria de voar. eu quero de volta alguma coisa que é muito minha, daqui de dentro, uma coisa que me pertence e que eu nem ao menos sei dizer ao certo quando perdi, como perdi, se é que perdi. talvez eu tenha apenas me esquecido. talvez eu esteja confusa, e só. só. talvez seja apenas cansaço, algum desencanto quiçá passageiro, se eu tiver sorte. e eu costumo ter sorte, ao menos diante do que é importante e isso me basta. talvez eu esteja temporariamente acovardada, embora me sinta muito envergonhada ao admitir, quase me recuso a dizê-lo em voz alta. é que as portas da liberdade são muito definitivas. por elas, a gente não volta. somente vai. não há retorno possível, não há arrependimento que permita olhar sobre os ombros. não: quando se toma nas mãos a liberdade, ela, aquela digna do título, é como cruzar para um outro lado. é como cruzar-se, atravessar-se, virar-se do avesso e  passar a ser uma outra coisa, inteiramente desconhecida e misteriosa, mas que de alguma maneira se sente que há de valer a pena. e se eu puder ter de novo aquilo que já foi, misturado ao novo que nasceu e é bonito e preciso aprender a ser, bem. já me sentirei presenteada, seja como for.

* Rubem Alves / foto: Renata Penna

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