morredouro

raul1anoxP-333

“(…) não tem importância que você não compreenda isso, porque estou acostumado com a incompreensão alheia, com a minha própria incompreensão, mais do que tudo.” *

e a essa altura dos acontecimentos, é tão minguado aquilo que ainda faz algum sentido. perco-me, tateio no escuro e tropeço em minhas impossibilidades e limitações enquanto procuro explicações para o que teima em fugir à lógica, para o que insiste em não se submeter aos caprichos da mente, para o que turra em carecer da inteligência para ser compreendido, para o que zomba da razão cartesiana que organiza os fatos da vida em escaninhos etiquetados, empilhados ordeiramente, uns por cima dos outros. tenho me sentido miseravelmente só. impiedosamente desamparada, como filhote cuja mãe morre ao lhe dar a vida, e daí por diante se vê abandonado no cerne do mundo sem que haja para si uma mão estendida, ou um colo para repousar. e esta solidão, por ser vazia, cinzenta e incômoda, em nada se assemelha àquela que me habituei a valorar,  aprendizado cultivado com diligência ao longo de toda a vida, ou ao que entendo por ela até aqui, já que não tenho perspectiva de sua completude porque sou finita e presente, como me coube. esta solidão que por ora me assombra não é uma solidão povoada, movimentada pelos festejos internos de uma alma que se alegra constantemente diante dos rebuliços da vida que tanto têm a ensinar – não, esta solidão é outra, uma solidão deserta. mergulhada nela, indefesa, vítima do mais absoluto abandono, tento gritar mas a voz não me sai – apenas um gemido oco me arranha a garganta e dói, dói de maneira excruciante, como se a vida me quisesse mostrar que não, não é mais possível, não há mais esperança, não há mais nada. ‘deus está morto’, bradava a personagem  do alto da montanha, e silenciosamente penso que sim, mas não terá sido deus. será algo em mim, e quizá esteja definitivamente desprovido da possibilidade de continuar existindo. morto. no entanto, como para algumas coisas sou muito medrosa, escondo meu rosto entre as mãos, fazendo ruídos irreconhecíveis, como criança querendo vencer com a irracionalidade o medo do escuro. recuso-me a engolir esta verdade que a vida me empurra goela abaixo, esforço-me para pensar em outra coisa, finjo que me esqueci. por ora, tem dado algum resultado – embora eu tenha, vez por outra, lampejos de lucidez que me obrigam a admitir que, cedo ou tarde, terei de abrir os olhos de uma vez. que seja tarde. mais tarde. sei que a ocasião me aguarda, mas tenho fugido. porque tenho muito medo da dor, e do que virá depois. sobretudo, tenho medo que depois não haja nada. sim. que não haja nada, é a maior paúra de todas.

* Caio Fernando Abreu/ foto: Renata Penna

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