barato interior

dia3janeirox-4

eu gosto das bolhas de sabão. elas me distraem por um tempo incrível, seduzem-me e encantam. são bonitas, e fugazes, e duram muito pouco, quase pouco demais para acomodar o pensamento, e por isso são ainda mais bonitas, por estarem sempre de passagem. como nós. e eu, e você. e como os nós, que se desfazem e refazem mais depressa do que estamos preparados para assimilar, e a isso chamamos vida. eu fico encantada com a efemeridade. com a certeza de não durar. com o fim iminente, batendo à porta, que logo em seguida há de deixar entrar um recomeço. aqui, ou em outro lugar. cativa-me esta sensação de passar por, e a intensidade daquilo que é absolutamente presente e há de ser o que puder agora mesmo, porque daqui a um instante já não estará mais. é doce. paradoxo, eu sei, mas por isso mesmo é que me encanta. é como um sopro. de vida. de delicadeza. eu viro criança de novo, diante de uma bolha de sabão. eu gosto de brincar com elas. gosto de sentir sua fragilidade nas mãos. gosto de cuidar para que durem um pouco mais, para ganhar alguns segundos além, gosto de zelar por elas para que não se estourem imediatamente, para que perdurem por mais um instante a me alegrar os olhos, os sentidos e o coração. gosto de contar os segundos que restam, e ainda assim não sabê-los. gosto de saborear a fugacidade, a alegria impossível de permanecer. eu gosto de sentir o escorregadio da mistura por entre os meus dedos, molhando-me os pulsos com seu toque gelado, rebelde. gosto de me lambuzar, deste modo, com a vida. agrada-me especialmente saber que ela que tenho nas mãos por ora, a bolha, apenas existe neste momento exato, para logo em seguida desaparecer sem tristeza, dando lugar a uma outra coisa. penso que se trata de um grande ensinamento, este. o desapego. o deixar ir. deixar ser. deixar-se desaparecer, para ser o que está por vir. a bolha de sabão me apaixona por seu mistério. por sua imprevisibilidade. que é a minha, já que estou também de passagem. já que também não hei de permanecer. a única certeza possível. e se o meu segundo dura quase uma vida, que importa. somos iguais, eu e as bolhas de sabão. somos a impermanência de tudo. somos a finitude da vida. do tempo. das coisas. somos a pequeneza que se desfaz ao sabor do vento, dos dias. ela se desfaz. eu também me desfaço, um pouco a cada minuto e isso é muito bonito, quando a gente olha além do que dói. eu tenho aprendido a olhar. lá adiante. todos os dias, a vida me ensina. e ela, a bolha de sabão, quando me desaparece das mãos e me deixa ver o que há do outro lado.

foto: Renata Penna

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