‘txai’

dia16empenedoP-21

‘txai’ é a palavra indígena usada por uma tribo do amazonas para referir-se a alguém a quem se quer muito. mais do que amigo, mais do que irmão, o ‘txai’ é alguém que, de tanta importância, passou a existir dentro de você e vice-versa. seria algo como “a metade de você que me habita é a metade de mim que habita você”. um estar no outro e o outro no um, um misturar-se e deixar-se transformar, por dentro. eu acho que isso é uma das coisas mais bonitas da vida.

abrir-se para o outro, deixar-se tocar, olhar, conhecer, não é coisa fácil. porque gente é bicho que sente medo. gente é bicho que quer garantia e que não quer se ferir. e abrir-se é arriscar-se. porque há sempre à espreita a possibilidade do engano, a possibilidade do tombo, a possibilidade da dor. porque amar alguém é aceitar que um dia pode-se não amar mais, é aceitar que o outro pode não merecer o amor que se tem para dar, é aceitar que o outro pode não ser quem a gente pensava que fosse. amar alguém é aceitar que o outro pode ser menor do que a gente enxergava e não alcançar o tamanho do amor que a gente tem pra dar, que o outro pode não caber na querência que a gente oferece. é aceitar que o outro pode não saber ser digno do amor que a gente dedica – porque nem todo mundo é. e nesse caso pode-se até aprender a ser, mas é preciso que se queira e nem sempre se quer.

mas eu digo, acreditando de mãos juntas e com os olhos rasos de querer não perder a fé, ainda assim vale a pena. ainda assim compensa ser desse tipo de gente que abre os braços, que baixa a guarda, desse tipo de gente que ama seja como for, sem promessa, sem ter certeza, arriscando o erro e o vazio que podem vir depois, se o que era pra ser não for. desse tipo de gnete que vê o outro pelo bonito que tem dentro de si – e às vezes escolhe o espelho errado, aquele que reflete torto, que reflete desfigurado, que reflete o equívoco que nem era nosso, mas acaba doendo na gente como se fosse.

e mesmo assim, mesmo com dor, eu ainda prefiro ser do tipo de gente que deixa o outro existir do seu lado de dentro. ainda que esse outro escolhido tão a dedo mas às vezes ingenuamente, nem sempre mereça o espaço que se lhe deu. ainda que esse outro fuja, escape, passe rasteira, e num belo dia se vá dando de ombros e assoviando despreocupado, deixando vazio o espaço que era para ter preenchido com um pouco de beleza.

porque cada ‘txai’ que fica morando aqui dentro – e eu sei que quando é bonito, é pra vida inteira – faz valer todos os outros. e preenche de uma vez só de amor e alegria o vazio de todos aqueles que deviam ter sido e não foram, porque não tinham em si o que preenchesse o espaço que não sabiam merecer. e porque querer bem é sempre melhor do que querer mal.

sei lá. mas eu penso que a vida, no fundo, é bem camarada. e se encarrega de levar para longe quem não é pra ficar.

ps: para ler ouvindo isso aqui.

foto: Renata Penna

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5 pensamentos sobre “‘txai’

  1. Muito legal sua postagem. Contudo o uso da palavra Txai se dá na verdade entre os povos indígenas do Acre. O significado tradicional é “cunhado em potencial”, aquele que pode casar-se com minha irmã, ou vice-versa, mas acabou tendo este significado mais amplo depois da música do Milton Nascimento. No Acre tratam-se como “txai” os índios e seus aliados. Mas independente disso, gostei muito do teu texto, exprime muito bem esse sentimento.

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