mas a vida é real e de viés

dia13azedinhae14rasaP-81

eu não sou essa, entenda. de certo modo me custa dizê-lo em voz alta e engolir essa verdade que me deixa fiapo nos dentes e repousa atravessada na garganta, mas de qualquer forma isto não é algo que se possa fazer de conta, já sei disso, não duvido mais, apenas aceito. por isso digo, e preciso que você me escute: eu não sou essa pessoa que você espera ver, quando me olha. ela é uma, e eu sou outra. em algumas coisas até nos parecemos, temos pontos em comum e falamos em uníssono uma vez ou outra, quase tão harmônicas quanto um coro bem ensaiado, mas isso é pouco, raramente acontece e não perdura, porque no mais das vezes somos muito diversas, opostas até, irreconciliáveis. talvez seja esta a origem primeira deste desencontro que nos tem visitado dolorosamente mais vezes do que gostaríamos: você espera que eu diga e seja e faça aquilo que ela diz e é e faz. mas, perceba: nisso não lhe posso atender, sob pena de desfazer-me em algo que não sou eu e que nada diz a meu respeito. porque nada disso corresponde à verdade – a minha verdade. e não posso fazer de conta, não posso alimentar este engano, porque não sei mentir. bem, se eu o desejasse de fato quiçá o conseguisse por algumas horas, por um dia, por um mês, por um ano, talvez até por uma vida inteira. não ignoro que há quem o faça, sei até que não são poucos. mas confesso-te agora, em um rasgo de sinceridade suicida: não quero. e por não querer é que a magia não acontece (e concluo que felizmente ela não acontece, e penso que nisto você há de concordar comigo ainda que não o faça de imediato, mas se tiver paciência e olhar com cuidado isto que te digo). por isso nos resta, a mim e a você, apenas a verdade. estamos ambos condenados a ela. sentemos-nos os três, pois. façamo-lo sem demora e tão corajosamente quanto possível, para nós dois. é o que te peço, desejando que seja capaz de fazê-lo: olha-me e vê. despe-te das fantasias e enxerga-me pelo que sou, porque é o único que tenho para dar. e caso lhe seja possível amar esta que tem por ora diante dos olhos, esta que não mente e não finge, esta que não lhe diz nada além do que há em si para ser dito, esta que lhe entrega corajosa e humildemente cada detalhe seu, cada cicatriz presenteada pelos entreveros com a vida, cada limitação nascida consigo ou adquirida em curso, cada impossibilidade lamentável ou não, cada delicadeza construída a duras penas ou milagrosamente descoberta sem esforço, caso descubra que há em si amor por essa criatura nua que se revela a seus olhos sem qualquer máscara e sem esconder-se por trás de nenhuma meia verdade, em um gesto derradeiro e inocente de confiança, então dá-me sua mão. e segue comigo sem saber para onde, porque eu também não sei.

foto: Renata Penna

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