no dia em que fui mais feliz

às vezes te odeio por quase um segundo, e às vezes este segundo dura vários minutos, que se juntam em muitas horas, que vão se aglomerando até formarem uma porção de dias que se agrupam e desembocam em meses, anos, uma vida inteira de um ódio que se confunde com o amor e me turva a vista e cresce sem pedir licença feito trepadeira em muro alto, que me consome por dentro, embaralha as ideias e atrapalha respirar, sufoca, entorpece, faz-me pequena por dentro, curvada diante do peso dessa raiva que não se finda em si mesma, que se alimenta das pequenezas cotididanas, das coisas miúdas e ridículas e risíveis que se apresentam nos cantos de cada dia, e das palavras estúpidas que escapam sem cerimônia, e quando percebo estou ruminando este gosto amargo que me deixa uma sensação incômoda no meio dos dentes e me desce arranhando a garganta, para depois embolar-se bem no meio do estômago e me fazer contrair em dores terríveis, como dores de parto, como se eu quisesse expulsar o sentimento, como se nesse ato expulsivo ele pudesse extinguir-se milagrosamente, como se fosse questão de sobrevivência livrar-me de algum modo deste dissabor insistente, libertar-me, porque não quero odiar, não quero ter em mim maus sentimentos como estes que me invadem quando me distraio, quero sentir-me leve de novo, suave, dedicar-me ao que é bom, quero tocar outra vez com as pontas dos dedos o sentimento bonito, doce, quero amar sem rancor, sem tristeza, sem raiva, sem. deveria ser simples, penso eu, deveria ser muito mais simples.

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