o que foi feito devera

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foto: Renata Penna

e assim, a visita ao bairro onde cresci e descobri grande parte das coisas que hoje me fazem ser precisamente quem sou, causou-me apenas embrulhos no estômago e uma dor de cabeça persistente. não foi nada épico, talvez nem ao menos digno de nota, mas foi uma coisa minha e por isso quero contá-la sem floreios, como aconteceu: apenas parei o carro em uma vaga proibida e saí para comprar balas. assim, no meio da tarde, e como se eu ainda tivesse dez anos e minhas maiores preocupações fossem o episódio repetido do desenho animado que assistíamos – meu irmão e eu – ao cair de todas as tardes, ou o novo rasgo percebido com tristeza logo pela manhã no tecido puído do cachorro sobre o qual eu acomodava a cabeça todas as noites, na hora de dormir. desejando acreditar com fervor que o tempo de fato não passara e aquela simplicidade das coisas ainda estava ao alcance, caminhei até a esquina e parei diante do mercado. constatei desolada que já não era o mesmo da minha infância, rendera-se às transformações do passar dos anos como todo o resto, irremediavelmente transformado: as casas coloridas substituídas por prédios de alturas inalcançáveis, as lojinhas de bairro dando lugar às enormes academias e demais estabelecimentos impessoais a fechar o mês com lucros pornográficos que não se podia contar nos dedos, os adultos apressados e distraídos em sua solidão impenetrável ao invés das crianças a correr pelas ruas com suas mochilas puídas penduradas nas costas, soltas das mãos dos pais e contentes a experimentar a liberdade que se tem quando não se sabe ainda do quanto a vida pode nos fazer perder. retrocedi, dei um passo atrás, saí do mercado e fui andando com pressa sem saber ao certo para onde: eu não tinha para onde ir. assaltou-me uma consciência absoluta da impossibilidade de todas as coisas que eu havia romanticamente imaginado: a casa da minha infância estava agora em ruínas, prestes a ser demolida para dar lugar a um novo empreendimento imobiliário; a escola da minha infância era agora um enorme pátio abandonado e engolido pela grama e pelo cimento; a casa do meu melhor amigo, duas quadras atrás da escola, abrigava agora uma clínica de terapias alternativas da qual entravam e saíam senhoras às turras com a passagem dos anos, como eu de certo modo, mas ao mesmo tempo de outra maneira tão distinta, como separada por todo um universo. tive que aceitar: nada era mais como era antes. nada será como antes, foi a verdade amarga que fui forçada a engolir junto com o café servido no balcão do boteco engordurado na esquina – a única coisa que sobreviveu de um tempo que se fez poeira e saudade. e eu, que nem gosto de café.

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