agora era fatal que o faz de conta terminasse assim

raul1anoxP-339“tudo isso dói. mas eu sei que passa, que se está sendo assim é porque deve ser assim, e virá outro ciclo, depois.” *

e que seja, assim seja. se eu acreditasse em deus talvez tivesse neste pensamento algum conforto: o que deus quiser. uma mão soberana controlando o que virá, cuidando para que seja da maneira devida, da maneira correta, da maneira precisa. zelando por uma ordem superior que dê sentido à maneira como as coisas acontecem, mas ao invés disso o que há é o vazio, e se é isto estou por ora resignada, com todos os meus sentidos direcionados à tentativa de aceitar esta realidade. cansei de esmurrar a ponta da faca, já me sangram os punhos das tentativas e a dor lancinante não me deixa dormir à noite. fico olhando pela janela, a casa toda escura e a luz da rua entrando pelas frestas da cortina, uma agonia exasperante que não se consome, ao contrário: tenho acordado todos os dias com a alma um pouco mais enrugada do que na manhã anterior. mas há de passar. há de vir outro ciclo. enquanto isso não acontece e o desamparo permanece, esforço-me muito para acreditar em alguma coisa, que não seja deus, que não seja destino porque tenho achado muito brega essa mania contemporânea de creditar os descaminhos da vida a algo que já está escrito em uma instância desconhecida qualquer, mas que seja algo, um detalhe em que eu possa depositar o que me resta, este pouco que ainda tenho nas mãos. em alguns dias, eu encontro. às vezes, uma delicadeza cotidiana: uma canção que vem tocar no rádio para dizer exato o que eu carecia ouvir, um amigo que telefona para dizer uma palavra bonita, uma flor especialmente faceira cuja cor singular me salta aos olhos, o bater de asas de um pássaro em meio ao cinza da cidade que quase engole a minha esperança. em outros dias, tudo fica mais dificultoso e não encontro nada a que me agarrar, mas aí me ocupo das coisas práticas, colocar em dia o trabalho procrastinado, lavar a louça, bater a roupa na máquina, responder emails, fazer a compra do mês – não, do mês não. limito-me a pensar no tempo em porções mais reduzidas, para que eu possa dar conta do susto. compro para a semana, existo para a semana. é quanto posso. quando vier o domingo, eu já serei outra. quisera. quero. quem sabe, por obra de deus, ou do destino, ou do que for. não estou mesmo em condições de escolher.

* Caio Fernando Abreu, in: ‘A Vera Antoun’

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