no decorrer da madrugada

egotripandoP-4finalmente, estive sozinha. apenas só, com meus silêncios. livre para atracar-me com as minhas impossibilidades, sem ter que explicá-las ou justificá-las para quem quer que fosse. vi-me assim, entregue ao mais absoluto abandono – e surpreendentemente, sem dor. não houve sofrimento, nem tristeza. não olhei minha situação como miséria ou infortúnio, ao contrário: senti-me tocada por uma espécie de graça cuja origem me escapava por completo, mas tampouco me importava, porque o fato era o essencial, e esse eu o estava vivendo, por inteiro, entregue, rendida: só. inspirando a obviedade daquilo que era só meu e a ninguém mais dizia respeito ou correspondia, por todos os meus poros, de boca aberta, com todos os meus dentes grandes e brancos arreganhados em desafio. eu estava entregue a mim mesma, e isso era bonito. de repente, sem aviso, sem remédio, eu era o que me restava. cabia a mim empanturrar-me dos meus próprios ecos, espantar-me com os meus ocos, regozijar-me com os meus vazios, abraçar com espírito generoso as minhas faltas, tantas, e afagar com doçura cada uma das minhas grandezas, também numerosas. aquilo tudo que eu, embora sendo, sequer sabia. agora era hora: confrontar-me. decifrar-me. dar-me a mim mesma a conhecer. qual narciso, mergulhei encantada no rio dos meus enamoramentos, e ao conhecer-me naquilo que antes ignorava, senti-me invadida por um amor imenso, brilhantezinho, sorridente. eu me vi, até naquilo que mais escondia. e só sei que amei, e estou amando.

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