do espelho onde ficou perdida a minha face

aguabca-8eu não tinha esse rosto, assim tão opaco. olhei-me no espelho hoje depois de tanto tempo, e tive uma bela surpresa. essas marquinhas pequeninas – talvez nem tão pequeninas, mas permito-me um fio de autopiedade e repito internamente que sim – no canto dos olhos, esse vinco amargo ao redor dos lábios. os fios brancos ganhando espaço em meio ao castanho avermelhado que sempre foi a minha cor. eu não era essa pessoa, eu não era. em alguma curva do caminho, essa pessoa desconhecida que agora descubro ser tomou-me de assalto, no susto, sem ter licença para tanto. olho-me, demoro-me a analisar os detalhes, mas não me reconheço. não nomeio este rosto como algo que me pertença. e foi-se tanto tempo entre uma vez e outra, passei tanto tempo sem mirar-me, tamanho foi o intervalo de ausência em que fugi deste reflexo – e agora sei bem porque – , que de repente foi o chão desaparecendo sob os pés. foi o baque. a rasteira. o tapa na cara. e o silêncio que se seguiu, deixando-me só e abandonada com aquilo que deveria me pertencer, e no entanto me é dolorosamente alheio, estrangeiro, distante. eis o que preciso agora: encontrar em mim esta nova figura, investigá-la e compreendê-la da melhor maneira possível. porque eu goste ou não, não há outro meio: daqui para frente viveremos juntas, carne e carne. ela e eu. ela, que agora sou eu.

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