nome próprio

adalbertolandiaP-55e lá se vai um aninho cheio de bicos. de pontas, de reentrâncias. o que ele fez de mim e o que fiz do que foi feito de mim está aqui, posso tocar com as mãos e vejo com detalhes diante do espelho: 2014 me empurrou da beira do precipício, matou-me as certezas e tirou-me da zona de conforto, jogou os meus medos todos bem aos meus pés e obrigou a olhar para eles, apertar entre os dedos, mastigar entre os dentes, engolir e aceitar entre as entranhas, como parte daquilo que eu precisava construir para mim, dali por diante. em 2014 eu cresci. não sei se posso dizer que ‘cresci como nunca’ – outros anos houveram na minha história que me fizeram crescer também um bocado, pela dor e pelo amor. mas 2014 foi impiedoso comigo. não me deixou fazer pausas, parar para respirar, para tomar fôlego. fez-me, dia após dia, de sol a sol seguir adiante, e adiante, e adiante. em 2014 eu mergulhei de cabeça e sem rede de proteção naquilo que era novo, no que vinha me espreitando por trás do muro, na esquina, ali onde eu ainda não havia ainda ousado colocar os pés. em 2014 eu abri mão daquilo que vinha pesando, do que já não fazia mais sentido, daquilo que há muito tinha deixado de ser, de respirar, de existir em mim como coisa viva, mas cuja morte eu ainda não tinha tido coragem suficiente para declarar em voz alta e então com as mãos sujas de terra e o suor escorrendo pela testa, enterrar definitivamente a sete palmos. em 2014 essa coragem se fez presente, e ela veio grande, veio definitiva. cortei os laços que há muito haviam virado nós de marinheiro que me impediam caminhar. disse os nãos que a vida vinha me pedindo para dizer com todas as letras e a recompensa veio na mesma medida: um sim grandioso de portas abertas e janelas também, de sol a se enfiar pelos cantos. e de um caminho bonito para caminhar, com um horizonte convidativo lá adiante. a vida me sorriu esse ano, sorriu sim. à moda dela, arreganhando os dentes e gargalhando com desafino, mas me sorriu e me tirou pra dançar no meio do salão, assim sem preparo, de susto. e eu fui. o coração quase que me sai pela boca, mas eu fui. enfiei o medo no bolso, e fui. fiz troça das minhas vergonhas, fiz pouco dos meus achados de não poder e fui.

2014, o ano do mergulho. de cair com a cara no chão, ralar o nariz, esfolar os joelhos. e levantar, botar um band-aid e continuar. em 2014 eu perdi umas inocências que a vida me arrancou sem piedade, jogando na cara a verdade crua, nua, irrecusável. e aí eu tomei a decisão que foi uma das mais difíceis dos últimos tempos: encerrar uma parceria profissional que eu acreditava que fazia parte daquilo que eu era. não fazia. não faz.

com a parceria profissional, lá se foi uma amizade – ou o que eu achava que era uma amizade. não era. e lá se foi, e virou luto pra depois virar nada. poeira na estrada. e eu vi o gosto bom que tinha essa coisa da gente nomear o vazio pelo que ele é: vazio. ele perde a grandeza e vira sopro. desaparece assim, num estalo. como se nunca tivesse sido.

em 2014 eu tirei um peso dos ombros e desamarrei as mãos, soltei as âncoras. e como foi bom estar livre, sentir o vento batendo no rosto e saber que dali pra frente, era comigo e só. não tinha mais muleta nenhuma para me apoiar o braço. e olha, eu andei tão melhor sem as muletas que me perguntei porque foi que eu demorei tanto a querer andar com os meus próprios pés.

olhar-me nos olhos, pelo lado de dentro e dizer em voz alta: é por aqui que eu vou. é aqui que se encontra aquilo em que eu acredito. e eu acredito. e o que a gente acredita, a gente não vende, nem troca, nem passa recibo. vida não é matéria da gente barganhar.

em 2014 teve muita paixão. teve luta. teve bandeira erguida por cima dos ombros, teve bloco na rua, palavra de ordem, coração latejando de esperança, teve grito de vitória por entre as lágrimas e o exagero de querer e acreditar e ter fé.

em 2014 teve amor, muito amor. e delicadeza também. e silêncio de olhar o outro, de acarinhar os cabelos, teve cafuné e cançãozinha de ninar com a voz embargada, daquele querer bem que transborda do peito e toma conta de tudo.

2014 me sacolejou, sacudiu pelos ombros e me colocou diante do espelho como quem diz: ‘entrega e confia, tu é grande’. e eu juntei a coragem que encontrei pelos meus cantos, fingi aquela que eu ainda não tinha, e fui ser grande. gente grande, de alma grande, de grandes sonhos, de desejo infinito e vontade teimosa e caminho comprido diante dos pés. e eu ainda estou caminhando. e cantando.

2014 me trouxe aqui assim: com nome próprio.

viver, amar, valeu.

2015: que seja doce.

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