sobre lagartas e borboletas

horaciosabino-1‘passa nuvem negra, larga o dia’. vai, e vê se me deixa. presenteia-me alguma solidão e deixa-me olhar o vazio. deixa-me experimentar este silêncio novo, tão povoado de coisas já ditas, ou pensadas, ou engasgadas bem a meio caminho entre o peito e a ponta da língua. deixa-me despedir do que fui até agora, deixa-me degustar o assombro da falta do chão por debaixo dos pés. deixa-me tatear cuidadosa este desconhecido que me bate à porta, deixa-me olhar a bagunça da casa que deixo para trás, ao fechar a porta. deixa-me aprender a ser nova. deixa que eu me apalpe por dentro, nas entranhas, em busca de alguma coragem a mais que ainda não tenho, ou que apenas não alcancei ainda por inteiro, porque por não ter ainda precisado dela desconhecia que vivesse em mim. deixa-me perder o medo, ou ao menos saber enfrentá-lo de olhos bem abertos e com um pouco menos de dor. para isso, é preciso tempo. quando a vida exige, é preciso calma, e um bocado de paciência. bem sei que há momentos em que tudo urge e tem pressa de acontecer, passar a ser, materializar-se de uma vez. mas é preciso que eu respire. encha de ar os pulmões, tome fôlego e melhore a postura para então, finalmente, dar o passo. adentrar de maneira irreversível este desconhecido que a vida me oferece, talvez como bênção disfarçada. talvez embrulhado em laço de fita e papel colorido, ou talvez desprovido de qualquer enfeite, apenas cru, real. e necessário. deixa-me ser, que tenho tanto a aprender.

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