eu canto meu blues

transarqui-37e dói, sabe. a dor insiste, e não quer se ir embora. adia a despedida, vai fincando raízes, vai fazendo morada como quem deseja permanecer por um tempo sem conta. há dias em que ela se espalha, feito leite derramado. há dias em que ela dói mais do que nos outros, e hoje, bem. hoje é um destes dias, lamentavelmente. um desses dias em que as peças se desencaixam, em que só o que há é o desencontro. por todos os lados. um destes dias em que eu tento, com toda a força que me resta, inspirar bem fundo e devagar, mas o ar insiste em não me preencher os pulmões, e tudo falta. um destes dias em que eu quero gritar, esbravejar, praguejar, atirar coisas na parede, quebrar vidros em pedacinhos, chorar aos soluços e me descabelar atirada ao chão, feito criança a quem se negou um doce. porque é assim que eu sinto, por ora: a vida insiste em me negar o doce. o lamber dos beiços. o prazer sem medida. a alegria extasiada e livre do prazer infantil de quem desconhece as consequências, os perigos, o abismo sempre à espreita diante do próximo passo, talvez. e nestes dias o que resta em mim, o que permanece, o que persiste, é o vazio. um espaço oco, solitário e frio, bem no meio do peito. e um desejo constante de ir embora. de quê, você me pergunta, e eu também não sei. de tudo. de nada. de qualquer coisa. de mim.

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