não se esqueça

Enrico3_FM-325não se iluda
nem se perca
nem vá além do que pode
 
apareça
não se esqueça
tudo começa de novo *
e assim é feita a vida, de mortes e recomeços. por isso é bonita, embora haja a dor. ou por isso mesmo. porque é disto que somos feitos, disto tiramos aquilo de que carecemos para a sobrevivência. a cada instante, ronda-nos uma pequena morte: inspira-se o ar que nos dá a vida para expirar aquilo que é morto, para deixar de existir em pequenas doses homeopáticas, salutares, balsâmicas. todos os dias, todos os dias. deixar ser. deixar ir. breath in, breath out. simples, e a coisa mais difícil do mundo. de algum modo, sei: não se alcança a vida recusando-se à morte. ela tem presença, está, seja como for. há que dar-lhe as mãos, acertar o passo. assentir que ela esteja, participe. que seja una conosco, que circule por nossos interiores e compartilhe das nossas intimidades. todos os dias, todos os dias. é a roda da vida que não rechaça a morte, pois dela depende. aceite-se: no curso da vida que se desenrola feito tapete a estender-se ao longo dos anos, abandonamos pelo caminho pequenas-grandes coisas que deixaram de servir. por este ou aquele motivo – já não importa -, perderam-se do significado que um dia tiveram. têm de ir. há que acatar-se, um a um, os pequenos lutos que a vida nos concede no decorrer dos dias, dos meses, dos anos. desapego é a palavra. viver é deixar morrer. e deixar-se morrer. o supremo paradoxo, yin e yang, dia e noite, frio e calor, o antagonismo que não o é. aquela coisa toda. complexa. e eu, e tu, e ele, nós, ali, bem no centro. o cerne. experimentando. entregando. a capacidade humana – bonita, tão bonita – de existir apesar, e fazer poesia daquilo que perece, daquilo que dói, daquilo que vaza pelos olhos em gotas salgadas, daquilo que amarra a garganta. a morte não é o fim, ela se junta à vida em um todo indivisível. a cobra a alimentar-se do próprio rabo. não há começos, nem meios. não haverá de haver fins. tudo começa de novo, não se esqueça. e agradeça.
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