passeio pelo escuro

abro bem a janela, debruço-me para o lado de fora e sinto a brisa morna da noite a beijar-me o rosto – sim, apesar de estarmos atravessando agosto, encravados bem no meio do inverno, é uma noite quente como têm sido todas, uma após a outra, um pequeno regalo da vida a enfiar-se por entre uma sucessão de tempestades, vazios e dores grandes demais -, procuro reencontrar a calma esquecida em meio ao turbilhão dos últimos dias, respiro vagarosamente para encher os pulmões tanto quanto possa, como se o ar por si mesmo tivesse propriedades curativas, e penso: haverá esta tristeza, um dia, de tornar-se uma outra coisa? haverá esta fina melancolia de organizar-se de outro modo entre meus sentimentos mais enraizados, de forma a tornar-se capaz de tirar-me alegremente para dançar, como uma doce saudade de algo bonito que já não persiste no mundo? anseio que sim. espero, permito-me crer, porque preciso muito que assim aconteça. por ora, aceito a dor e que ela seja assim, tão cinzenta. mas para sobreviver, preciso agarrar-me sem duvidar à esperança talvez ingênua de que não o será para sempre, porque não hei de suportar. careço de saber que adiante, em algum lugar mais ou menos distante na linha do tempo (que seja menos, ó, por piedade), olharei para tudo isso e serei capaz de esboçar um sorriso leve, delicado e desprovido de dor. um sorriso branco que talvez carregue consigo uma ponta de melancolia – a esta estou muito acostumada e posso aceitá-la como parte do que permanecerá comigo de maneira mais permanente – , mas nenhum amargor. volto à janela. olho para cima e o céu me surpreende, estrelado como pouco se deixa ver, nesta cidade em que mal se enxerga o que há por cima das janelas mais altas dos edifícios amontoados. por entre as estrelas, não tantas assim mas de qualquer modo suficientes – não estou em condições de exigir -, e escolho a mais brilhante. como criança, apertando os olhos e cruzando os dedos, faço um pedido: que a tristeza não dure mais do que o tempo necessário; que a alegria tenha pressa de esparramar-se pelos meus interiores – de novo.

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