te dei meus olhos pra tomares conta

mafaldaflores“desamparada, eu te entrego tudo – para que faças disso uma coisa alegre. por te falar eu te assustarei e te perderei? mas se eu nunca falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia.” *

e quero crer que não, que ao falar não perderei coisa alguma, que não haverá em ti nenhum medo, que serás finalmente capaz de abrir para mim os teus braços compridos e fortes para que neles eu faça um ninho onde possa reencontrar alguma paz, a paz possível dentro das nossas tempestades, minhas e tuas, e aquelas nascidas do nosso encontro que apesar de bonito nunca foi silencioso, nem sereno, ao contrário, foi sempre desde o princípio redemoinho, um revolucionar-se da cabeça aos pés, e deste modo aprendemos a estar e a seguir amando, e desejando, e transformando tudo o que pedia em nós para ser transformado, e quero crer que assim será ainda hoje, e amanhã, e por um tempo que não sei contar, porque já estou perdida das horas e dos dias do calendário, porque a minha alma conta os tempos de uma outra maneira, conta nas alegrias que fizeram nascer em nós tantos sorrisos, conta nas dores que choramos juntos afogados um nas lágrimas do outro e também o contrário, conta nas pequenas delicadezas e nos pedacinhos de poesia cotidiana que apontamos com a ponta dos dedos para que o outro visse, conta nas misturas que fizemos entre o que era meu e o que era teu porque queríamos muito dividir e estar no outro como algo que não perece, conta nesta coisa nova que nasceu de nós quando o inteiro de mim encontrou-se com o inteiro de ti e disto se fez um algo para o qual nunca soubemos dar nome e que de nome tampouco careceu para ser de fato e sobreviver apesar dos perigos, e por isso, e por tudo isso quero crer que assim há de ser também hoje, que poderei dizer tudo que de mim transborda querendo existir como verdade posta em palavras e moldada com a ponta dos dedos, quero crer que quando eu terminar de dizê-lo ainda estarás aqui, ainda quererás permanecer, ainda terás esperanças, como eu tenho tantas, às quais encontro-me agora tão agarrada que me dóem os braços pela força que faço, e faço porque sei, de um modo intuitivo e muito comprometido sei, que não posso desistir, que há aí algo tão precioso, um pequeno tesouro, que é preciso crer e querer e desejar muito, e persistir agarrada ao esforço para que sobreviva, porque o que foi ainda é, de alguma maneira desconhecida que ainda precisamos aprender, com afinco e sem medo, mas em suma é isto: o que foi, ainda é.

* Clarice Lispector, in: ‘A Paixão segundo G.H.’

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