da minha carne triste quase feliz

CIVITA_P-43“é que fui uma adolescente confusa e perplexa que tinha uma pergunta muda e intensa: ‘como é o mundo? e por que esse mundo?’. fui depois aprendendo muita coisa. mas a pergunta da adolescente continuou muda e insistente.” *

porque hoje, eu fui morada da saudade. uma nostalgia a invadir-me de susto, a contaminar-me os pensamentos e todos os sentires acomodados no peito. uma dorzinha fina, aguda e insistente, a latejar-me no lado esquerdo do peito. uma falta. meu deus, quanta falta. e um vazio, paradoxalmente a ocupar-me por inteiro, todos os espaços que tenho por dentro. pensei comigo que há momentos em que não sei direito o que fazer de mim – daquilo que penso, daquilo que sou, do imenso que quero, do abismo que se me coloca diante dos pés, das dores acumuladas nos cantos da alma, do cansaço que me repousa nos ossos, da inenarrável preguiça que me contém os passos, da imensurável querência por tudo aquilo que me falta, da escandalosa alegria diante de tudo o que é bonito. tudo isso se me bagunça por dentro, chega a me fazer faltar o ar por alguns instantes, e sinto uma nostalgia quase infantil por aquele tempo, lá, distante, onde as coisas eram mais simples, onde eu mesma sabia menos sem disso me dar conta, onde entre o preto e o branco havia menos tons de cinza, onde as coisas eram mais explicáveis, compreensíveis, digestas. talvez não fossem, de fato. talvez eu apenas não me importasse tanto, mergulhada nas minhas inocências, nas minhas ingenuidades de menina a correr atrás do vento, todos os dias, um após o outro. hoje, o vento virou furacão. e quase sempre há uma tempestade à espreita, ameaçando com trovões, relâmpagos e uma boa quantia de escuridão. o bonito disto é que, por enquanto, e da melhor maneira possível diante daquilo que tenho para dar, eu tenho sobrevivido. empapuçada das minhas intensidades, embolada nas nas minhas contradições, emaranhada das minhas idiossincrasias. e sempre, sempre, agarrada à esperança do arco-íris depois da chuva. talvez aquela menina ainda corra atrás do vento, todos os dias, um após o outro. por aqui, em algum lugar, que eu visito em silêncio e em segredo de vez em quando. é, talvez.

 * clarice lispector / foto: renata penna

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