da concha que guarda o mar

museuonwheelsP-14a menina chorava a inconstância do vento. desejava promessas, saberes definitivos, algo que durasse. desejava que ao invés de rodopiar-se furiosamente a bagunçar-lhe os cabelos e levantar-lhe as saias, sempre maroto e passageiro, ele permanecesse. durasse. queria que repousasse, sereno, esticado em seu colo, com suavidade e alguma doçura, a lhe acariciar a pele delicadamente como um amigo querido que vem consolar, decidido a curar-lhe as dores passadas. que eram tantas, e a cada dia somavam-se a elas as dores novas, frescas, recém-nascidas, que lhe pegavam desprevinida. a ela, que sempre fora tão distraída e de outro modo não saberia existir. ela lhe pedia, suplicante, do único modo que sabia fazer, que ficasse. perdurasse. acalmasse. qual o quê. como vinha, decidido, forte, impiedoso, inconstante, rebelde, o vento passava. ia divertir-se mais adiante, dançar apaixonadamente em outras paisagens, bagunçar os cabelos de outras meninas e levantar-lhes as saias, para rir-se depois, em sua inconsequência selvagem. a menina emburrava, ciumenta. queria o vento para si, enclausurado, constante. queria aprisionar-lhe por entre os braços miúdos e muito brancos, queria permitir-se ser egoísta e tê-lo silenciosamente, sem alarde, apenas seu para toda a eternidade. mas a birra da menina, de rosto lavado de lágrimas, durava pouco. o que ela queria não era possível, e nem seria. era a tarefa do vento rodopiar sem descanso, dias a fio, ano após ano, por toda a vida e ainda mais. era tarefa do vento existir em liberdade. como era também da menina, e ela sabia. com alguma dor e um pouco de medo, entre os soluços do desconsolo que lhe explodia em pranto de tempos em tempos, ela sabia. eram feitos da mesma matéria. em segredo, como cúmplices de um crime perfeito, guardavam para si o maior mistério de todos, a maior alegria também: que amar é livre. que amar é asa. que o amor não é o repouso – mas o vôo.

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