eu acho que você não percebeu que o meu sorriso era sincero

dasaguasreto-1e porque a minha alegria de estar viva faz-se necessariamente do meu entusiasmo com o que me cruza o caminho, da minha capacidade de apaixonar-me pelos detalhes daquilo que se me apresenta aos olhos pela primeira vez, ou que sendo visto pela enésima vez me causa tanto maravilhamento quanto se o fosse pela primeira. e porque eu só sei estar, assim: de olhos bem abertos. olhos de fora, olhos de dentro. ressabiadamente à espera de ser surpreendida, de tomar um susto, de que me apontem algo que eu antes não sabia e que me causa riso, ou espanto, ou curiosidade, ou uma mistura de tudo isso e ainda algo mais, uma miscelânea que se aproxima bastante a essa ideia abstrata de algo que me faz cócegas na alma, algo a que eu poderia aspirar dar o nome de felicidade. eu preciso sorrir. eu preciso querer ter os olhos arregalados, desejos de engolir o mundo. eu preciso achar graça, eu preciso querer tocar com os dedos, enfiar-me pelos cantos das coisas, conhecê-las por dentro, sentir-lhes o cheiro, o gosto, saber-lhes ásperas ou suaves, doces ou amargas, eu preciso enfiá-las na boca, mastigar e sentir seus pedaços por entre os dentes, descendo-me aos bocados pela garganta, fazendo-se nova parte de mim. é como eu sei aproximar-me das coisas: mais do que vê-las, eu preciso vivê-las, sabê-las em mim. a vida pra mim é coisa táctil, e tudo preciso tocar, possuir com o sentimento. e porque é assim que se faz o meu encantamento pelo mundo, deste desejo de tatear as coisas pelos seus avessos e conhecê-las tão intimamente quanto conhecemos aquilo que nos visita as entranhas, é que assim também quero sempre fazer com as pessoas, não todas, não quaisquer, mas aquelas mais bonitas que brilham no meio de todas as outras, aquelas que me cruzam o caminho e ao fazê-lo me dão um susto de curiosidade, ou de bem querência, ou de um amor gratuito que não posso explicar, e no mais das vezes nem me interessa fazê-lo. estar ao lado apenas, com desimportância, não me alimenta, deixa-me vazia – eu quero entrelaçar-me. o que é às vezes um pouco triste (e às vezes muito triste) é que há neste vasto mundo quem se assuste desta minha voracidade, ressinta-se da minha falta de cerimônia em visitar-lhes por dentro ao menor sinal de encantamento mútuo. mas, percebam: é recíproco. assim como peço, dôo. estendendo graciosamente o passo da mesma dança, eu também me desnudo, para me dar a conhecer.

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