se correr o bicho pega

centrao_P-37uma vez, há muitos anos, em uma tarde qualquer tão deslocada de mim na linha do tempo que parece ter quase acontecido em uma outra vida, pediu-me a minha terapeuta que fizesse uma lista. ela gostava disso: listas. pedia-me que fizesse muitas, com os mais variados propósitos. e eu, que para lançar-me a escrever o que quer que fosse que me desafogasse as angústias que sempre se me empoleiravam por dentro não custava muito, cumpria a missão, obediente e aplicada. mas bem, voltemos à lista: esta, especificamente, intitulava-se “eu tenho medo”. deveriam reunir-se ali todas as minhas paúras, das mais risíveis e comezinhas às mais complexas e paralisantes. verborrágica e pouco sucinta que sempre fui, fiz uma lista de duas páginas de caderno, frente e verso. tais eram os medos que me roçavam as entranhas – muitos, inúmeros, quase incontáveis. dia destes, encontrei perdida entre uns papéis, a tal lista. não a reproduzo aqui porque não faria sentido, já que não sou mais aquela de então e meus medos hoje são outros e muitos dos que estão ali, eu mal compreendo. minha primeira reação foi de estranhamento, como se eu de alguma maneira enxergasse naquelas linhas uma pessoa que nunca fui – embora sim, tenha sido, e ela ainda me habite em algum lugar escondido que visito em algumas horas especialmente obscuras. mas logo em seguida, senti-me um pouco satisfeita. por ter saído deste lugar, e não ter hoje mais tanto medo de todas as coisas, sobretudo por não ter mais tanto medo da vida. entretanto, perceba: eu digo tanto, e neste ‘tanto’ reside a grande charada: sim, ele ainda está aqui. mais tímido do que já esteve, mas ainda me habita e vem visitar nas horas mais sorrateiras do dia, quando fico muito distraída. ele se coloca no meu caminho, sem cerimônia, sem tato. enrosca-se por entre os meus pés como um animal rastejante e traiçoeiro e, quando percebo, já dei com a cara no chão. o medo do medo do medo do medo do medo. crescendo em mim, por dentro, como uma trepadeira que se lança a ocupar todos os espaços, até que lhe cortem as raízes. sim, eu caminhei um bocado. fui muito além de onde já estive, mas ainda assim é uma luta de quase todos os dias: atracamo-nos sem pudor algum, disputando as batalhas uma a uma. às vezes ganho eu, às vezes ele me vence – e quando isso acontece, o que me resta é chorar baixinho, encolhida num canto, lambendo as feridas até que virem novas cicatrizes que vêm somar-se às antigas, cada uma com a sua história, e então finalmente começar de novo. tomada por uma teimosia que não sei bem onde é que me nasce – se no coração ou na boca do estômago -, eu me levanto e começo tudo mais uma vez. a luta. a disputa. eu, e o medo que uma dia desses eu findo de vez. ou não. talvez, em um dia sem pretensões e esvaziado de promessas, possamos finalmente nos dar as mãos, carinhosamente, como velhos inimigos que, de tanto estranhar-se ao longo dos tempos, esqueceram-se porque é que haveriam de brigar. talvez esse seja o dia mais bonito de todos. talvez. eu acho que sim.

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