mas dá pra se ser feliz

rezicateatrosombra-1então é isso mesmo, e assim caminhamos: sós. solitariamente. porque há uma parcela da vida que não se partilha, que não permite mistura, que foge aos conjuntos e acontece assim, unidade. há quem se ressinta dessa impossibilidade da dissolução total e irrestrita no outro que amamos, mas eu ao contrário: admiro-me, e fico contente. alegro-me desta possibilidade, de que algo em mim seja apenas meu, e não permita mistura. importa-me preservar esta solidão tão preciosa, este respiro desacompanhado, esta solitude caleidoscópica que me aquece por dentro e me torna uma pessoa mais inteira e mais disposta à vida. tenho preguiça de estar com as pessoas, muitas vezes. não, não tenho vocação de eremita, longe disso. o convívio me enternece, e aprendo coisas singulares e muito bonitas ao tocar e ser tocada, as pessoas não me exasperam, gosto delas, gosto do toque, de sentir-lhes o gosto e saber das coisas que lhes vão no mais fundo da alma, gosto de conversar, de rir junto fazendo barulho, de compartilhar filosofias estúpidas em uma madrugada gelada, numa esquina qualquer, gosto de conhecer e gosto de dar-me a conhecer. gosto de conviver. mas preciso, de tempos em tempos, estar apenas comigo. preciso dizer coisas em voz alta e saber que ninguém há de ouvir. preciso rir e chorar em total liberdade, uma coisa apegada à outra, ato contínuo, sem explicações. preciso olhar a cidade à noite pela janela, sentir o vento a bater-me no rosto, recostar a cabeça para trás e agradecer por isto: estar viva, ser aquilo que sou e não precisar que alguém me valide a existência. estar só entristece algumas pessoas, a mim por outra: alegra-me, e me faz mais capaz de ser agradável no instante seguinte, quando de novo estiver em meio a todas as gentes, estendendo a mão para alcançar o outro, olhando nos olhos, abraçando e sendo abraçada, escutando e sendo escutada. estar só, inteiramente só, longe do alcance de quem quer que seja, é para mim como um recarregar de baterias, uma refeição reforçada, um gole de água fresca ao final de um dia de muito calor. solidão é sobrevivência, e não há dor. solidão é quando eu me alimento de mim mesma.

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