365 dias

fazendaIpanema-245‘deixei que tudo desaparecesse / e perto do fim, não pude mais encontrar / o amor ainda estava lá’ *

sonhei com você essa noite. com você vivo, com você bem. sorrindo. cantando. a última vez fazia tempo. deve ser a proximidade da data – já vai fazer um ano. nessa época, há 365 dias, eu estava às voltas com uma porção de despedidas e últimas chances, à espera do dia em que finalmente eu te diria unilateralmente adeus, de uma vez por todas. era muita coisa junta me atropelando no correr dos dias, era uma dor excruciante como poucas que eu senti na vida – talvez mesmo nenhuma – e eu respirava com muita dificuldade. eu voltava do hospital todos os dias aos prantos, em meio ao trânsito infernal da cidade eu ouvia canções que me lembravam de você, de nós, de tanta coisa. a música sempre foi um elo inquebrantável entre nós dois. a música, que entre a gente dizia tanto. desde muito tempo, numa época em que só nos comunicávamos pelas palavras escritas em papéis amassados que chegavam pelo correio, você gostava de assinar as tuas cartas com trechos das tuas canções favoritas, e eu contigo adquiri o hábito de fazer o mesmo – até hoje, ainda faço.  não escrevo mais cartas, mas mantenho intocado o costume de dedicar trechos de música às pessoas que mais gosto. é uma, das muitas coisas tuas que permaneceram em mim. mas eu falava daqueles dias, em que eu ia e voltava do hospital entre memórias mais ou menos organizadas, saudades difusas e dores quase fatais. aqueles dias em que o peito me doía a cada novo sopro de vida a me encher os pulmões enquanto a sua ia escorrendo pelos dedos, dia após dia, hora após hora, em uma longa e desolada caminhada rumo ao inevitável. todas as noites, lá pelo começo da madrugada, eu abria a janela do apartamento silencioso, onde além de mim todos dormiam, e me sentava no parapeito. puxava bem fundo o ar gelado, de inverno, impiedoso. e ali, numa solidão de dar dó – porque sempre são solitárias as grandes dores, como as grandes alegrias – , eu esgotava as lágrimas do dia. e bem sabia que dali a algumas horas o sol ia aparecer de novo, lá no canto do horizonte. em desafio. e eu ia começar tudo outra vez – aquela montanha-russa de sentimentos e lembranças e culpas e dores e saudades e muito amor. houve dias em que achei que nunca mais ia conseguir parar de chorar. achei mesmo que esse passaria a ser um ritual meu, muito particular, de todas as madrugadas: encostar-me no parapeito da janela, respirar bem fundo, chorar soluçando. mas, sabe. muita coisa aconteceu. enquanto eu segurava na tua mão, nas longas horas que se arrastavam naquele quarto de hospital, entre apitos de aparelhos eletrônicos, vai e vem de enfermeiras e médicos e desenganos de toda sorte, aconteceu quase uma vida inteira. entre as memórias que eu resgatava sozinha, falando contigo sem receber resposta. eu percebi tanta coisa. eu aprendi tanto. sobretudo, aprendi a esquecer. não tudo: aprendi a escolher. a olhar e ver, a saber o que merecia ficar e o que não. a soltar os nós que me prendiam a tantos vazios, a tantas faltas, a tantos desencontros, e deixar ir. e aprendi a lembrar, também. sem medo. a me agarrar sem qualquer pudor às coisas bonitas. que eram tantas. são tantas. um dia você me disse que tinha medo que eu me esquecesse das coisas boas. pois hoje, quando já faz quase um ano que você se despediu dessa vida, abrindo atrás de ti de maneira irreversível a porteira do esquecimento, eu posso te dizer sem gaguejar: eu não me esqueci. eu não vou me esquecer. as coisas boas, as coisas bonitas, as coisas preciosas, todas elas, estão gravadas em mim. na pele. no corpo. na alma. sinto delas o gosto, o cheiro, o toque. eu carrego comigo. eu te carrego comigo. o que havia de ruim, creia-me: dissolveu-se. transmutou-se. será para sempre de algum modo parte daquilo que eu sou e de como cheguei aqui, mas já não há nisso nada que tire a grandeza da experiência, que é linda em suas infinitas nuances, imperfeições, possibilidades. ao fim, fizemos algo importante de tudo o que nos foi dado, e o fizemos da melhor maneira possível. da nossa melhor maneira possível. eu me orgulho disso. eu me orgulho de nós, no final das contas. e hoje, quando me tateio por dentro em busca do que ainda permanece, tenho uma única certeza: o amor ainda está aqui. de tudo, apesar de tudo. dando sentido a tudo. o amor ainda está aqui. e há de ficar, ressoando sempre, teimosamente. como uma velha canção – uma canção pra você viver mais.

( * trecho de ‘Canção pra você viver mais’, de John Ulhoa) 

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