sou pequenina e também gigante

boacavajul16-14“eu não sou maluco, a minha realidade é diferente da sua” *

só eu posso encontrar a saída desse labirinto. sei disso. sei também que ela não está tão longe quanto parece, nem é tão inalcançável quanto eu imagino, nos meus devaneios salpicados de medo, dúvida e solidão. ela está ali. está aqui. está em mim. sou o beco sem saída, como bem dizia Clarice, mas sou também a cura, a epifania. o milagre. parece mesmo incrível que contrários tão irreconciliáveis possam coexistir, dentro da mesma criatura. uma coisa a começar no momento exato em que a outra se finda e assim sucessivamente, como uma cobra a engolir infinitamente o próprio rabo. até a indigestão. ou a revelação. que bagunça. e deste emaranhado delirante de linhas e nós e laços e intrincados desencontros, entre a vinda e a ida, entre o desencanto mais absoluto e a esperança mais cintilante, entre os olhos rasos de pranto e a boca frouxa de riso, bem aqui, em algum lugar no meio de tudo, no olho do furacão, é que hei de encontrar a paz. como sempre. como tem sido. a única maneira possível. para mim, para quem sou (e nada sei ser além disso), é assim: o silêncio em meio à mais absoluta algazarra, a calmaria sob a mais impiedosa tempestade. a coexistência, o infinito particular que tenho aprendido a ser sem desejar outra coisa. basta, para isso, que eu seja capaz de não desistir. basta, para isso, que eu alcance uma vez mais a valentia necessária, aquela, feita da mais pura teimosia misturada a uma inocência quase suicida. aquela, que desde que passei a me entender (ou a me des-entender) por gente, é parte essencial daquilo que tenho de mais verdadeiro. que assim seja. que uma vez mais eu seja capaz de superar este cansaço que me castiga os ossos e a alma. que o meu sorriso não desista de, mais uma vez, desenhar-se por sobre as minhas bochechas lavadas de sal. incansavelmente. maravilhosamente. para que eu possa enfim desvendar este labirinto e encontrar a porta – e descobrir uma outra vez que, afinal, não havia porta. era só a vida, ela mesma. misteriosa como tantas vezes e bonita como sempre. quem estava ali à minha espera, afinal, era eu.

* frase do Chapeleiro Maluco, in: ‘Alice no país das maravilhas’

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