duas três dez cem mil lágrimas

centrao_p-65pois certas coisas, certos arranjos, repare, parecem mesmo impossíveis. e a gente permanece, insiste, persiste, dá murro na ponta da faca até quase perder os dedos, e ainda assim. inalcançável. há aquilo que tem força porque precisa acontecer, e do mesmo modo, de outro lado, há tudo aquilo que não se presta aos nossos desejos e manobras, por fortes e sinceros e bem intencionados que sejam. tentamos a muito custo transpor os muros, as barreiras, os obstáculos, mas chegamos do outro lado e há apenas vazio. e dor. e lamento. então choramos, encolhidos num canto, vítimas de um abandono atroz: abandonaram-nos a sorte, a possibilidade, o fiapo de esperança. o que fazer então? com sinceridade digo que ainda não sei, e estou agora a entregar-me à dor, simplesmente. a chorar as perdas, a engolir o luto. mastigar os nãos por entre os dentes. apertar o desamparo por entre os dedos, até sentir que me latejam os ossos. e repito-me cadenciadamente, em uma cantilena um pouco monótona mas muito necessária, que amanhã será um novo dia. não estou muito convencida, mas ainda assim digo a mim mesma uma vez emendada na outra, acreditando que de tanto repetir, quem sabe tornarei a remota possibilidade uma verdade irrevogável. poderei então juntar meus cacos, respirar bem fundo, olhar para frente. recomeçar. espero que sim, embora não tenha certeza. mas a verdade, perceba, é esta: não me resta mais do que esperar. de olhos rasos. feito criança em véspera de natal. esperar. quem sabe. talvez eu mereça o milagre.

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