a casa onde eu sempre morei

fazendaipanema-287porque eu também sou, em alguma medida, fruto desta dor. em meio dela, eu nasci. e fui existindo da maneira possível, estendendo pelos cantos as minhas mãos desastradas, aprendendo a amar de modo estabanado, por entre os espinhos, por entre as impossibilidades, tateando as belezas que, sim, também existiram e não foram poucas, ou eu não estaria hoje aqui, inteira, com força suficiente para olhar essa história em seus detalhes mais escondidos, buscar compreender o que fomos, e o que fui eu e o que sou. e esta dor, que é e sempre foi minha sem sê-lo, numa misturança de sentires e mundos que caminharam entrelaçados desde o início dos nossos tempos, nas entranhas de uma história escrita estabanadamente, rabiscada e rasurada por entre caminhos e descaminhos, compreendo talvez pela primeira vez: não posso largá-la a meio caminho. não posso virar-lhe as costas como se não me dissesse respeito, não posso abandoná-la como se fosse um saco inútil de bagagem desnecessária, porque não o é: ela também me forma. dela também sou feita, ela repousa em cada molécula daquilo que me coloca de pé, e finalmente o reconheço sem pudor e sem paúra. não porque seja fácil – não é. mas é o que há. é a irrefutável realidade que a vida, ela mesma, despida de subterfúgios, atira-nos ao rosto em desafio: nada se faz sem o seu oposto, nada existe apenas por si sem seu contrário por mais indesejável, e em tudo há mais de um lado. não há alegria sem dor e não há, sem ela, lugar para o amor. eis o que me tem sido fundamental e inevitável acolher como verdade irrecusável: que amar necessariamente dói – não que haja necessariamente a obrigação do sofrimento, mas a dor, ela sim, crua, está e permanece como companheira natural do ato de amar quem quer que seja. porque amamos necessariamente o imperfeito, porque o somos todos, por essência. para além das superficialidades do gostar comezinho que se disfarça como se fosse algo mais sem no entanto sê-lo, amar por inteiro significa abrir-se para a falha do outro, aceitar a falta, a mão estendida sem serventia, a impossibilidade mais absoluta naquele que seria o momento da comunhão, o vazio e o sopro gelado do abandono na hora mais triste. e se falo disso é porque sei bem do que se trata este abandono. sei como é experimentá-lo, sei bem do que nos causa por dentro e das muitas marcas que permanecem, a despeito do tempo, a despeito das distâncias, a despeito das inúmeras e desesperadas tentativas de embrulhar o que já foi e abandonar pelo caminho. mas sei bem também que, da vida que me resta nas mãos, eu decido o que faço. é meu livre arbítrio. minha derradeira libertação. e é isso o que eu escolho fazer: eu amo sem pensar duas vezes. sem pedir desculpas. e sem olhar para trás.

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