keep walking

fazendaipanema-108há uma tristeza bruta me mastigando por dentro, ela dói, mas não é dor aguda, é dor crônica e insistente, daquela dor que permanece e incomoda o tempo todo sem no entanto incapacitar para a vida de todos os dias, o que ainda não sei se é vantagem ou desvantagem, porque eu não queria, entende, eu não queria acordar todos os dias e lavar os cabelos e calçar os sapatos e engolir um pão dormido aos bocados e sair à rua e cumprir prazos, e chegar no horário, e saciar expectativas que não são minhas, e dar respostas que não sei, e fingir certezas que não tenho, eu não queria acordar todos os dias e viver a vida como se nada tivesse acontecido, porque não, não é verdade, aconteceu algo, aconteceu uma coisa importante, porque há uma tristeza me consumindo por dentro, porque me dóem os ossos, porque me dói o estômago, a cabeça, porque o meu único desejo é enfiar-me bem debaixo dos cobertores com as janelas fechadas e ali, no escuro mais escuro do meu quarto, deixar que se passem as horas, os dias, as semanas, talvez eu envelheça ali, deitada sob as cobertas, de olhos fechados, só com os meus pensamentos, e as minhas querências não atendidas, e as minhas necessidades não satisfeitas, e as minhas queixas não ouvidas, e as minhas feridas não cicatrizadas, e as minhas carências não acolhidas, e as minhas lágrimas não derramadas, eu e tudo aquilo que poderia ter sido e não foi, tudo aquilo de que não dei conta ou de que não deram conta pra mim, eu e tudo aquilo que eu queria ter sido e não deu, tudo aquilo que pensei que seria e não chegou a acontecer, tudo aquilo que sonhei e virou pó na calada da noite, tudo aquilo que tentei construir e se desfez quando pisquei os olhos, eu e toda a minha solidão de estar abraçada a cada uma das minhas impossibilidades, eu e tudo aquilo que me pertence e não posso dividir com ninguém porque a existência humana é ridícula e indizivelmente solitária, apenas eu no escuro do meu quarto à meia noite à meia luz, apenas. mas não. a vida continua, lá fora. debaixo do sol. ela me puxa pelo colarinho, e eu não tenho saída a não ser isso mesmo: continuar.

foto: renata penna

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