quem diria que viver ia dar nisso

fazendaipanema-109e no que me diz respeito preciso te contar que a vida deste lado do mundo tem sido isso, minha irmã: uma sucessão de dores mais ou menos suportáveis, repetidos sustos de me reconhecer tão risivelmente humana, lágrimas de demasia abafadas no travesseiro, silêncios interrompidos pela urgência do café da manhã ou da ida ao parquinho para distrair as crianças, ligações enfadonhas de gente de que não gosto, cobranças estúpidas que atendo sem saber porquê, prazos inúteis que cumpro mecanicamente, apertos de mão, e ao final de cada dia, a cabeça rodopiando feito roda-gigante e um sem-fim de pensamentos que vão e vêm, para lá e para cá, de um lado a outro, agitando-se freneticamente, trombando uns com os outros pelo caminho, ridiculamente. tão risível, tudo isso. não estivesse você tão longe e nos distrairíamos falaríamos disso madrugada adentro, eu faria pouco das minhas próprias queixas e você me diria coisas ligeiramente sábias enquanto bebêssemos vinho vagabundo, uma taça após à outra, sem sentir o gosto, apenas pela diversão. música ruim ao fundo. cheiro de asfalto molhado. ah, aqueles tempos. tenho tantas saudades. tudo agora é tão outra coisa. às vezes penso que a vida me virou mesmo do avesso e não, eu não descobri que o avesso era o meu lado certo, para ser sincera ainda estou aqui, revirada, confusa, ridícula, sem saber para que lado correr, calculando disfarçadamente uma rota de fuga, olhando-me no espelho sem saber o que dizer a mim mesma. tenho tanto a colocar em palavras, e no entanto elas me faltam. fico calada, patética, lambendo as feridas, a alma encolhida, os braços largados ao longo do corpo, os pés cheios de calos doloridos, tão cansados de procurar a saída deste labirinto que, afinal, sou eu mesma. tudo, tanto, tudo. há tanto tempo não rodopio minhas saias, e gosto tanto de rodopiar minhas saias. não quero ser ingrata: a vida tem me dado muita coisa. e há tanto de bonito. sinto que deveria sorrir e agradecer, mas na maior parte do tempo não sei se rio ou se choro. queria o teu abraço. queria muito o teu abraço. que saudades, minha irmã. que saudades. você me faz muita falta. **

* título: de Caio Fernando Abreu, em carta a Maria Lídia Magliani / ** texto: março de 2006, trecho de mensagem para a amiga distante que já não está mais aqui

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