e há tempos são os jovens que adoecem

pracagastao-60

eu escrevi o texto abaixo (a citação inclusa) aos quinze anos. lá se vão mais de vinte, e é sempre um espanto deparar-me com a menina que eu fui, toda emaranhada em suas caraminholices angustiadas, toda em carne viva, como eu nunca deixaria de ser. o colorido-dolorido, paradoxo perdido na espuma cotidiana dos dias, dualidade que aprendi a saborear. ah, essa menina. há tanto de mim nela, e há tanto dela em mim. ela, que naquele tempo era eu. ou quem eu achava que eu era. puxa. que coisa maluca-assustadora-maravilhosa é o tempo, e a gente enroscada nele.

‘parece cocaína mas é só tristeza’ *

eu sei que as coisas às vezes parecem maiores do que são na verdade, e eu sei que tudo parece pior num dia cinza em que o sol não aparece, e eu sei que eu estou cansada e dormi mal ontem à noite e quando eu durmo mal a vida parece um emaranhado bem mais insuportável do que talvez seja, eu sei sim eu sei, mas eu não consigo evitar, eu me pergunto se há de ser sempre assim, entende? tão solitário, tão vazio. as palavras ditas na frente do espelho. as mãos frias. o sinal da esquina trocando as cores, o tic tac do relógio, as horas passando, mais um dia chegando ao fim, a noite silenciosa e no meio de tudo, eu. uma ilha, cercada de silêncio por todos os lados. às vezes me bate um desespero, sabe. uma vontade de gritar, bem alto. sem medo, sem vergonha. escandalosamente, mesmo. mas no segundo seguinte já me sinto ridícula, porque sei que é inútil. não há ninguém – ninguém ouve, ninguém vê, ninguém entende e ninguém virá. um oceano de distância, toda uma vida. eu escrevo. escrevo muito. furiosamente, até começarem a me doer os dedos e eu sentir a vista cansada e as palavras começarem a se embaralhar e eu não aguentar mais e então eu me jogo na cama, fico olhando para o teto. esperando sem saber o quê. eu acho muito, esse cansaço todo para os meus quinze anos. sei lá. de algum jeito, não parece ser certo. dizem que as coisas mudam, dizem que tudo melhora, dizem que é só uma fase difícil. eu não sei. eu quero acreditar, sabe. preciso muito acreditar. e me agarro a essa possibilidade como se fosse uma tábua de salvação, mas lá no fundo, o medo persiste, igualzinho, sem tirar nem por. o medo de que seja assim para sempre. para sempre – tão definitivo, isso. o medo de que o amanhã seja sempre igual ao hoje. as mesmas palavras que eu não digo. o mesmo abismo entre eu e os outros. o mesmo arrepio de desânimo na base da nuca. o mesmo sorriso amarelo escondendo a vontade de enfiar a cabeça na terra feito avestruz. a mesma falta de vontade de sair de casa. a mesma lágrima escorrendo silenciosa. o mesmo buraco no peito. tudo assim, tão eu. eu mesma. porque é isso, mudam os dias, passam as horas, as coisas se reorganizam do lado de fora, mas eu. eu sou sempre eu mesma, eu não consigo me evitar. e às vezes eu penso que isso deve ser o mais bonito de tudo, que eu seja sempre eu mesma, igual a ninguém, e que isso é o que vai valer a pena no fim das contas, mas esse fim não chega, esse fim demora. e até lá, eu não sei o que fazer de mim. eu-não-sei. **

* Renato Russo, em ‘Há tempos’/ ** outubro de 1993

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