é assim como uma fisgada,

captura-de-tela-2017-01-08-as-08-30-07Não sei dizer, quando penso desse jeito, enumero proposições como: a ser uma pessoa menos banal, a ser mais forte, mais segura, mais serena, mais feliz, a navegar com um mínimo de dor. Essas coisas todas que decidimos fazer ou nos tornar quando algo que supúnhamos grande acaba, e não há nada a ser feito a não ser continuar vivendo. *

esforço-me, reviro-me por dentro para encontrar forças, chego a pisotear meus princípios, ir na contramão de mim mesma e fazer listas de prioridades, longas listas onde eu possa assinalar alternativas, coisas a fazer, pequenas atividades cotidianas, distrações mais ou menos temporárias que me afastem da dor. de nada adianta, devo dizer. ocupo-me por algum tempo mas ao final do dia largo-me no sofá diante dessa inenarrável bagunça: os cacos do que se quebrou espalhados pelo chão, ameaçadores, prontos a me fazer cortar os pés, sangrar infinitamente, chorar de novo. sim, não há nada a ser feito a não ser continuar vivendo. ajeitar o relógio antes de dormir, beber um copo d’água ao acordar, cumprir os horários, encher o tanque do carro, ir ao supermercado, colocar a roupa na máquina, esvaziar a pia da louça que se acumula há dias, é preciso continuar vivendo. será mesmo? agradaria-me mais fechar as portas, colocar uma placa do meu lado de fora: ‘deixe-me ir, preciso andar’. mas onde vou, eles vão comigo: os cacos. incontáveis pedaços daquilo que parecia tão forte, tão sólido. tão inatingível. nada é (talvez eu agora aprenda a lição). fiz o possível, coloquei na prateleira mais alta bem longe de mãos curiosas, tirava-lhe o pó todos os dias ou ao menos sempre que me lembrava e certamente com mais frequência do que seria esperado que fizesse, cuidava para que não ficasse exposto ao sol nem à chuva, para que não pegasse vento, esperava mesmo estar fazendo um bom trabalho, e enfim. um gesto estabanado e lá se foi, ao chão. espatifou-se com barulho e estardalhaço, os cacos voaram para longe, por todos os cantos, vários me acertaram em cheio e os que não, apenas me aguardam, pacientes. sabem que não tenho para onde ir porque me conhecem, sabem de mim até o que eu gostaria que não soubessem. falhei também neste propósito: escancarei-me além do limite aceitável. mostrei todos os meus subterfúgios, dei a conhecer cada uma das minhas rotas de fuga e agora, resta-me apenas o silêncio. e a lágrima, essa que ninguém me tira.

* Caio Fernando Abreu

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