pequeno mapa do tempo,

porque há dias em que fica grande demais. exageradamente, mesmo. tudo em demasia. transbordando. a dor. a falta de ar. o cansaço. a vontade de ir embora. eu quase me afogo, sabe. nas lágrimas que não me escorrem dos olhos, mas caem para o lado de dentro e me inundam as entranhas. os gritos que não me saem da boca e me ensurdecem e embaralham as ideias. tudo tão sombrio. tudo tão difícil. eu me pergunto se há de ser assim mesmo, tão custoso. se há que haver tanto esforço, tanto suor escorrendo pela testa, tanta dor nos ossos pelos movimentos repetidos sem levar a lugar nenhum. eu quero sentar um pouco, entende. à beira da estrada. descansar, ver a vida passar, esvaziar a cabeça e não pensar mais em coisa nenhuma. faz tanto tempo que eu não penso em coisa nenhuma. faz tanto tempo que eu não sei mais o que é ficar assim, leve, somente. inspirando e expirando sem sofrer por coisa nenhuma. quase já não me lembro mais como é, ou que gosto tem, e sinto tanta saudade. tenho saudade de tudo. tenho saudade de mim, de um jeito de existir que não sei. a vida tem sido tão exigente comigo. e às vezes – sim, é verdade – eu entro nessas viagens de autopiedade, sabe. fico com uma pena danada de mim. penso que não é justo, que não pode ser e que era mais fácil cair um raio na minha cabeça. não sei se rio, se choro. ou se deixo pra lá, chuto para um canto as ideias embaralhadas e desisto de tudo de uma vez. seria tão fácil, sabe. desistir. entregar os pontos. fechar os olhos, esvaziar a cabeça. calar o coração. seria bom. seria simples, e rápido. talvez até indolor. mas olha, desistir custa um bocado também, sabe. porque no fundo eu não quero. porque no fundo eu me repito todos os dias que é preciso continuar. persistir. perseverar. aquela coisa toda. discursinho besta, mas é. é isso aí. eu me convenço, entende. sei lá como e sei lá porque, mas eu me convenço que sim, quem sabe. a luz no fim do túnel. o pote de ouro no final do arco íris, o pacote completo. puta coisa besta, isso. às vezes ser humano é uma coisa bem ridícula, viu. isso de existir. seria cômico, se não rasgasse tanto a gente por dentro.

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