sticks and stones can break my bones

tanta coisa se foi para não voltar mais.

eu penso, enquanto ouço o sinal de mais uma chamada para aula on-line – são muitas por aqui diariamente, três filhas em três escolas diferentes todos os dias – o que vai restar da gente quando tudo isso acabar.

(pensei agora que soa quase patético dizer isso assim, “quando isso acabar”. não há de acabar, está feito. seja como for, seja de que modo que a vida se arranje, porque sim, ‘life finds a way’, está tudo posto. não somos mais os mesmos, não caminhamos nas ruas do mesmo modo, não nos relacionamos mais da mesma forma e algo em nós está danificado para sempre. não se reescreve uma história que já foi contada, ela permanece conosco, ela nos molda, ela se torna quem somos e quem seremos dali por diante.)

perguntei-me outro dia quantos anos dura a infância, e a resposta me assombrou: com alguma generosidade, posso considerar que dure 12 anos. a pandemia, o isolamento, tudo isso já dura um ano, e nem o mais otimista entre nós consegue acreditar que haverá de durar menos de dois. faço as contas, eu, tão avessa às matemáticas: 2 anos representam pouco mais de 15% da infância. quase um sexto da infância perdida entre máscaras, quedas de internet e álcool gel. parto então já desiludida para as contas da adolescência, que me produzem ainda mais assombro: se considerarmos – uma vez mais, com uma dose extra de generosidade – que a adolescência dura 6 anos, 2 anos equivalem a um terço dessa fase da vida. 33%. bem, 33,3333…, uma dízima periódica tão infinita quanto a minha angústia materno-pandêmica. um terço da adolescência sem ganhar as ruas, sem estar no mundo, sem descobrir possibilidades, sem beijar bocas, sem tocar peles, sem romper limites, seguindo protocolos e regras de conduta (existe coisa mais anti-adolescente do que seguir regras?).

é muito luto. os pesares se acumulam sem que haja em nós espaço interno para acomodá-los.

todos os dias tem se morrido literalmente, do morrer físico, da morte do corpo, aos montes, a perder as contas. e temos morrido todos também, de morte coletiva, metaforicamente, simbolicamente, de tudo um pouco, pelas beiradas e a cada minuto.

e além disso tudo. bem, além disso tudo, nada. era só isso mesmo. não tenho resposta para pergunta alguma. não trago comigo elixires quaisquer. tenho meus bolsos tão vazios quanto a vazia história, como dizia o poeta.

ah, sim. e além disso tudo e por isso mesmo, fora genocida. e não, eu não perdoo quem votou 17 ou comprou a ideia de “dois extremos opostos” em 2018. vocês têm a morte nas costas. muitas. incontáveis. dos mais variados tipos, cores e formas. e eu espero sinceramente que sintam o peso.

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