aprendi novas palavras e tornei outras mais belas,

“tenho aprendido tanto sobre acolhimento, sobre aceitação e respeito. incrível como quando a gente descobre um meio de julgar menos, aprende a amar melhor.”

vasculhando uns papéis antigos, fui dar hoje com essa frase rabiscada num canto de folha. não estava datada, portanto não sei dizer com exatidão quando foi que a escrevi, mas senti-me agradecida em silêncio por ter aprendido isto um dia e estar – confesso – ainda a aprendê-lo cotidianamente: julgar menos e amar melhor. amar é coisa que se aprende, sim. não se nasce sabendo e há quem não aprenda a fazer direito, de um jeito que não machuque ao invés de afagar (ou ao menos não muito e sobretudo não propositadamente) e não aprisione ao invés de libertar. porque amar, em derradeira análise, é isso: libertar. um abrir de braços. o soberano respeito à inteireza do outro, a seu modo de ser e estar no mundo. amar é olhar o pássaro que voa. é sentir encher os olhos quando volteia no ar. é sorrir quando ele bate as asas, esperar que volte e refastelar-se com o que fica conosco em forma de experiência, de troca, de doação. o julgamento é vício corrente, é tentação cotidiana. queremos o outro pelo que achamos que deve ser. que preencha nossos vazios. que seja grande naquilo que somos pequenos, que alcance nossas impossibilidades e dê conta delas sem que para isso precisemos mover um dedo, sem obrigar-nos a escarafunchar nossas dores e varrer nossas poeiras de sob o tapete. mas amor é outra coisa. não é, ao contrário do que dizia o poeta (ó, pretensão a minha, desdizer o poeta), “estar-se preso por vontade”. é estar solto, é poder rodopiar-se ao vento, é chegar até onde a alma deseja e ainda assim saber-se parte de alguma coisa que permanece. é um pertencimento sem posse. é ir e voltar, sem nunca deixar de estar. acolhimento, aceitação e respeito. sorte na vida. que bonito presente, este.

e sem nós dois o que resta sou eu

captura-de-tela-2017-01-12-as-21-25-38já não sei bem o que é. se é dor, saudade, tristeza ou uma mistura irreconhecível de cada uma dessas coisas que ao final de cada dia se me acomodam no peito e impedem respirar adequadamente. puxo o ar com dificuldade e inspiro curtas quantidades, como se meus pulmões fossem incapazes de suportar o exagero de uma respiração profunda, corajosa e destemida. não me sinto destemida. ao contrário, tenho me sentido ridiculamente encolhida diante da vida, ao menos nas horas mais avançadas da noite, quando o silêncio toma conta de tudo. tem havido muito disto, dentro e fora de mim: silêncio. mas não o silêncio amigável de mãos dadas com as minhas intensidades a dizer-me em sua quietude exato o que preciso escutar, não o silêncio que tive por companheiro desde a mais afastada meninice e que me permite uma inteireza que poucas vezes consigo quando não está e não estamos, não. este silêncio de agora é outro, a enfiar-se por todos os cantos, provocativo, a cutucar-me as entranhas. estico-lhe as mãos e me ponho a investigá-lo com as pontas dos dedos, ele é áspero e suas pontas me ferem, fazendo pequenos cortes que sangram aos poucos e demoram muito a cicatrizar. estamos sós, eu e ele. ele, que também me pertence. ele, que sem palavra e sorrateiramente diz tanto sobre quem eu sou e quem tenho sido. ele que me desvenda, sem piedade, rindo-se sadicamente das minhas lágrimas. penso: uma coisa de cada vez. concentro-me em aceitá-lo apenas hoje sem tanta paúra: se conseguir fazê-lo, ao findar o dia terei alcançado uma grande vitória, um passo gigantesco nesta caminhada que está longe do fim, bem sei. quero abraçar este silêncio e também acarinhá-lo como um amigo querido, coisa que todos os silêncios que me visitam têm sido sempre, desde quando já nem me lembro. se estamos e estaremos juntos, que seja isso também uma coisa bonita, leve, mãos dadas e tudo, como estou acostumada, a leveza mesmo na dor. daquele amor que a gente recupera, para além do véu das agonias excruciantes. quero um silêncio bonito e doce de novo. sim, isso: que seja doce. de novo.

é assim como uma fisgada,

captura-de-tela-2017-01-08-as-08-30-07Não sei dizer, quando penso desse jeito, enumero proposições como: a ser uma pessoa menos banal, a ser mais forte, mais segura, mais serena, mais feliz, a navegar com um mínimo de dor. Essas coisas todas que decidimos fazer ou nos tornar quando algo que supúnhamos grande acaba, e não há nada a ser feito a não ser continuar vivendo. *

esforço-me, reviro-me por dentro para encontrar forças, chego a pisotear meus princípios, ir na contramão de mim mesma e fazer listas de prioridades, longas listas onde eu possa assinalar alternativas, coisas a fazer, pequenas atividades cotidianas, distrações mais ou menos temporárias que me afastem da dor. de nada adianta, devo dizer. ocupo-me por algum tempo mas ao final do dia largo-me no sofá diante dessa inenarrável bagunça: os cacos do que se quebrou espalhados pelo chão, ameaçadores, prontos a me fazer cortar os pés, sangrar infinitamente, chorar de novo. sim, não há nada a ser feito a não ser continuar vivendo. ajeitar o relógio antes de dormir, beber um copo d’água ao acordar, cumprir os horários, encher o tanque do carro, ir ao supermercado, colocar a roupa na máquina, esvaziar a pia da louça que se acumula há dias, é preciso continuar vivendo. será mesmo? agradaria-me mais fechar as portas, colocar uma placa do meu lado de fora: ‘deixe-me ir, preciso andar’. mas onde vou, eles vão comigo: os cacos. incontáveis pedaços daquilo que parecia tão forte, tão sólido. tão inatingível. nada é (talvez eu agora aprenda a lição). fiz o possível, coloquei na prateleira mais alta bem longe de mãos curiosas, tirava-lhe o pó todos os dias ou ao menos sempre que me lembrava e certamente com mais frequência do que seria esperado que fizesse, cuidava para que não ficasse exposto ao sol nem à chuva, para que não pegasse vento, esperava mesmo estar fazendo um bom trabalho, e enfim. um gesto estabanado e lá se foi, ao chão. espatifou-se com barulho e estardalhaço, os cacos voaram para longe, por todos os cantos, vários me acertaram em cheio e os que não, apenas me aguardam, pacientes. sabem que não tenho para onde ir porque me conhecem, sabem de mim até o que eu gostaria que não soubessem. falhei também neste propósito: escancarei-me além do limite aceitável. mostrei todos os meus subterfúgios, dei a conhecer cada uma das minhas rotas de fuga e agora, resta-me apenas o silêncio. e a lágrima, essa que ninguém me tira.

* Caio Fernando Abreu

da vida que ficou em minha vida

fazendaipanema-32quando as nossas impossibilidades se esbarram, é o que lateja em mim. dor aguda, mesmo. tenho vontade de fugir, de desaparecer. de ficar em silêncio. porque quero estender a mão e não consigo. e preciso tanto de um acolhimento que não encontro, de uma compreensão que não acontece. e fico sozinha, tão sozinha. sozinha comigo e com as minhas coisas que você não alcança, sozinha com tudo aquilo que não consigo dizer, sozinha com todo o desejo que me afoga o peito e não encontra palavra exata para ser entendido. sempre achei isso o mais tragicômico da vida, esse desencontro continuado, esse esticar-se para alcançar o outro sem no entando consegui-lo, esse revirar-se para caber em um molde do qual já se sabe antecipadamente que não: não serve, não alcança, não é. o que fazer, então? continuar, penso. rasgar o molde, e fazer a vida acontecer sem etiquetas. exagerar para fora de todos os tamanhos possíveis, para então descobrir uma coisa nova – uma coisa qualquer que não seja eu e não sejas tu e de algum modo, seja algo de mim e algo de ti. um lugar desconhecido onde possamos nos encontrar e rir-nos ruidosamente do que antes não era possível, despidos dos descaminhos anteriores, nutridos de uma esperança teimosa, sorridentes de uma ingenuidade qualquer, da criança desembrulhando o laço do presente na manhã de natal. que sejamos presente: eu, e tu. que sejamos o laço de fita. e a vida. e o que há de mais bonito para ser desembrulhado diante dos olhos. os meus, os teus. os nossos.

por um segundo mais feliz

reibirapit-1abro a porta e coloco os pés para fora, um de cada vez. ouso encarar o silêncio e a escuridão. ao longe, o horizonte. um breu impenetrável. pouco ou nada se vê, apenas algumas luzes espaçadas, em uma infrutífera tentativa de agregar vida ao emaranhado de montanhas adormecidas. inspiro profundamente, e ato contínuo meu peito se preenche de saudades de algo que não sei o que é, mas não dói. ‘e por falar em saudade, onde anda você’, assalta-me a memória a canção que vem casar-se perfeitamente ao instante que me escorre por entre os dedos vagarosamente, sem nenhuma pressa. onde andará? rio, sozinha, ao me dar conta que mal sei por onde ando eu, entre tantos descaminhos, reviravoltas e entreatos com os quais a vida tem se divertido às minhas custas – como poderia eu saber de você? andamos à vida, certamente, os dois. às voltas com as próprias escuridões, trabalhando arduamente, todos os dias, em carne viva, para levar ali algum pequeno-grande feixe de luz. do meu canto tenho conseguido algum progresso, a pequenos passos, tão obstinada como uma formiga trabalhadeira. desistir, jamais. desesperar – bem, às vezes, temporariamente e sem perder a coragem. sei bem que tens feito o mesmo, conheço de ti o bastante para sabê-lo sem duvidar. permito-me orgulhar-me de nós, de ambos igualmente. temos sido fortes sem negar-nos àquele desamparo tão necessário diante das coisas grandes demais. temos nos dado à vida de olhos bem abertos. temos respirado tão fundo. temos aprendido tanto. temos dado até mesmo aquilo que não acreditávamos ter para dar, e quanto de bonito se revela bem aí. de susto, a alegria. aqui, mergulhada em silêncios. longe de tudo. longe de ti. a alegria de estar, enfim, compreendendo algo que não carece nomear, porque apenas existe, é, acontece, de modo inteiro e definitivo. tocando humildemente, com a ponta dos dedos, uma existência mais consciente, menos equivocada, mais lúcida, sem tantas confusões emocionais advindas da necessidade infantil de projetar no outro aquilo que é meu, e poderia apenas ser meu. ser feliz é responsabilidade minha. está tudo aqui, ao alcance. assim como para si, também. dois mundos inteiros. duas pessoas. um mais um, igual a infinito.

* para ler ouvindo: https://www.youtube.com/watch?v=-LprqBP0JTw

te dei meus olhos pra tomares conta

mafaldaflores“desamparada, eu te entrego tudo – para que faças disso uma coisa alegre. por te falar eu te assustarei e te perderei? mas se eu nunca falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia.” *

e quero crer que não, que ao falar não perderei coisa alguma, que não haverá em ti nenhum medo, que serás finalmente capaz de abrir para mim os teus braços compridos e fortes para que neles eu faça um ninho onde possa reencontrar alguma paz, a paz possível dentro das nossas tempestades, minhas e tuas, e aquelas nascidas do nosso encontro que apesar de bonito nunca foi silencioso, nem sereno, ao contrário, foi sempre desde o princípio redemoinho, um revolucionar-se da cabeça aos pés, e deste modo aprendemos a estar e a seguir amando, e desejando, e transformando tudo o que pedia em nós para ser transformado, e quero crer que assim será ainda hoje, e amanhã, e por um tempo que não sei contar, porque já estou perdida das horas e dos dias do calendário, porque a minha alma conta os tempos de uma outra maneira, conta nas alegrias que fizeram nascer em nós tantos sorrisos, conta nas dores que choramos juntos afogados um nas lágrimas do outro e também o contrário, conta nas pequenas delicadezas e nos pedacinhos de poesia cotidiana que apontamos com a ponta dos dedos para que o outro visse, conta nas misturas que fizemos entre o que era meu e o que era teu porque queríamos muito dividir e estar no outro como algo que não perece, conta nesta coisa nova que nasceu de nós quando o inteiro de mim encontrou-se com o inteiro de ti e disto se fez um algo para o qual nunca soubemos dar nome e que de nome tampouco careceu para ser de fato e sobreviver apesar dos perigos, e por isso, e por tudo isso quero crer que assim há de ser também hoje, que poderei dizer tudo que de mim transborda querendo existir como verdade posta em palavras e moldada com a ponta dos dedos, quero crer que quando eu terminar de dizê-lo ainda estarás aqui, ainda quererás permanecer, ainda terás esperanças, como eu tenho tantas, às quais encontro-me agora tão agarrada que me dóem os braços pela força que faço, e faço porque sei, de um modo intuitivo e muito comprometido sei, que não posso desistir, que há aí algo tão precioso, um pequeno tesouro, que é preciso crer e querer e desejar muito, e persistir agarrada ao esforço para que sobreviva, porque o que foi ainda é, de alguma maneira desconhecida que ainda precisamos aprender, com afinco e sem medo, mas em suma é isto: o que foi, ainda é.

* Clarice Lispector, in: ‘A Paixão segundo G.H.’

da beleza das coisas anônimas

Captura de Tela 2015-08-18 às 17.17.46eu não sei que nome dar a isso. não sei que etiqueta escolher, entre as muitas que tenho na cabeça, neste emaranhado de conceitos e preconceitos que habitam as minhas ideias. você, eu, isso que a gente tem. isso que sobrevive às idas e vindas que têm sido tantas: isto. não é que eu não ouse dizer o nome, eu apenas não sei que nome dizer em voz alta, foge-me a palavra correta e no mais das vezes, desconfio que ela nem ao menos exista. por enquanto (talvez possamos inventá-la). isso. isso que me é tão desconhecido, e por isso mesmo tão bonito. e de repente penso que será talvez isso mesmo, sem carecer de nome ou de classificação ou de etiqueta ou de escaninho ou de qualquer coisa quadrada que limite seus cantos, que impeça seu vôo, que contorne essa liberdade brilhosa, desafiadora. me pego pensando que por ora posso (podemos, será?) ser feliz assim mesmo, sem dar nome à coisa, apenas saboreando-a sem pressa, mastigando seus pedaços por entre os dentes, passando a língua pelos cantos da boca, lambuzando os dedos, sentindo o gosto desse ser estar um pouco misterioso que agora experimentamos, ao desprender-nos dos nossos medos, das nossas vontades comezinhas de um pouso seguro, da nossa necessidade mundana de um porto para ancorar, da nossa arrogância besta de querer nomear tudo aquilo que nos visita por dentro. estamos abrindo os braços, eu e você. diante de um desconhecido que é imenso, insanamente misterioso, e que nos escapa às vistas e ao entendimento. e deste modo, estamos sendo. da maneira possível, sem tantas perguntas. acolhendo as incertezas e tudo aquilo que não sabemos. e há sempre à espreita a possibilidade, a nos fazer cócegas nas dobrinhas da alma: de que seja bonito; de que seja inteiro; de que seja um porta aberta, um sopro, uma brisa; de que seja um rasgo de felicidade e delicadeza e poesia, um respiro. um pequeno milagre. nosso pequeno milagre sem nome.

isso que não ouso dizer o nome

santana-20se ao menos a sua voz do outro lado da linha não soasse tão doce. se as palavras que você me diz de maneira cadenciada não fossem tão exatas e tão precisas. se os teus silêncios não me significassem tanto. se as tuas mãos segurando as minhas, se os teus dedos magros e compridos entrelaçados nos meus dedos curtos e roliços não me fizessem ter vontade de parar o tempo para que o que há em nós nunca se terminasse. se ao menos a tua respiração lenta e suave no meu pescoço não provocasse em mim esse arrepio que me percorre a espinha e a tua presença do meu lado na sala de espera do cinema não me fizesse ter esses desejos insanos de morrer ali, de tornar-me eternidade assim misturada contigo. se não fosse tão certo apenas estar ao lado ouvindo a tua respiração e inspirando para os meus pulmões o mesmo ar que vai parar nos teus. se ao menos a gente não se encaixasse desse modo tão harmonioso até mesmo nos desencontros, se ao menos não parecesse tudo tão destinado a acontecer, a permanecer, a sobreviver apesar de todas as tempestades e interrogações e suspiros de desânimo e gritos de dor em meio à madrugada. se ao menos não houvesse em meio ao caos tamanha beleza. se ao menos seguir em frente sem olhar para trás fosse possível, se ao menos houvesse um lugar em mim onde coubesse o esquecimento de tudo o que já dissemos, fizemos e experimentamos. se ao menos eu pudesse voltar a ser quem era antes de botar os olhos em ti pela primeira vez. se ao menos a nossa história tivesse sido escrita a lápis. se. se. se.

ah. se ao menos eu não tivesse ainda aprendido a dar a isso o nome de felicidade.

no dia em que fui mais feliz

http://fotomamifera.com.br
http://fotomamifera.com.br

às vezes te odeio por quase um segundo, e às vezes este segundo dura vários minutos, que se juntam em muitas horas, que vão se aglomerando até formarem uma porção de dias que se agrupam e desembocam em meses, anos, uma vida inteira de um ódio que se confunde com o amor e me turva a vista e cresce sem pedir licença feito trepadeira em muro alto, que me consome por dentro, embaralha as ideias e atrapalha respirar, sufoca, entorpece, faz-me pequena por dentro, curvada diante do peso dessa raiva que não se finda em si mesma, que se alimenta das pequenezas cotididanas, das coisas miúdas e ridículas e risíveis que se apresentam nos cantos de cada dia, e das palavras estúpidas que escapam sem cerimônia, e quando percebo estou ruminando este gosto amargo que me deixa uma sensação incômoda no meio dos dentes e me desce arranhando a garganta, para depois embolar-se bem no meio do estômago e me fazer contrair em dores terríveis, como dores de parto, como se eu quisesse expulsar o sentimento, como se nesse ato expulsivo ele pudesse extinguir-se milagrosamente, como se fosse questão de sobrevivência livrar-me de algum modo deste dissabor insistente, libertar-me, porque não quero odiar, não quero ter em mim maus sentimentos como estes que me invadem quando me distraio, quero sentir-me leve de novo, suave, dedicar-me ao que é bom, quero tocar outra vez com as pontas dos dedos o sentimento bonito, doce, quero amar sem rancor, sem tristeza, sem raiva, sem. deveria ser simples, penso eu, deveria ser muito mais simples.

que será, será

grimmagresteP-46e sim, eu sei, não ignoro que as marcas disso tudo hão de ficar porque simplesmente assim é, assim faz-se a vida e a isso mesmo ela se presta, as coisas significam e quando as tocamos elas nos transformam e algo que antes nos era alheio passa então a existir conosco como parte daquilo que seremos dali por diante, e isso não é castigo, muito ao contrário, acredito que a isso possamos chamar de dádiva, bênção, milagre ou o que seja que lhe equivalha de acordo com a crença de cada um, porque ao fim se percebe que é bonito que não se possa passar pela vida com indiferença, ou até que se possa mas que desta maneira não faça muito sentido nem seja tão grandioso quanto poderia se fosse de outro modo, e digo-lhe por mim que não sei ser nada diverso disto pois assim é que me reconheço, este coração feito de carne que sente e sonha e sangra todos os dias, exposto na estante, assim é como sou por dentro, assim é como fui feita por obra do acaso ou do divino ou daquilo que me escapa, de qualquer maneira indubitavelmente é isto, e sei que não lhe digo nenhuma novidade posto que me conheces por dentro, e por fim por isso assim se dá, as coisas modificam-me ao passar por mim e também as pessoas, especialmente as pessoas, delas ficam em mim as marcas e assim te carrego eu comigo, você e esse emaranhado que fizemos do que a vida nos trouxe a viver, essa história às vezes suave e outras vezes muito bagunçada, às vezes cheia de alegria e outras vezes dolorida de modo tão agudo que quase não me alcança ar para encher os pulmões, às vezes poética e delicada e outras vezes frenética e urgente, tudo isso somos e tudo isso está aqui, está em mim, está em cada pedaço do meu corpo que te sente e toca e deseja, está no canto dos meus olhos que miram os teus vaivéns ao redor dos dias que passamos juntos ou apartados, está no cansaço dos meus ombros e na minha vontade de desistir vezemquando e nas minhas mãos pequenas e na felicidade que eu sinto e conheço bem e reconheço como conquista minha mas tem uma parte dela que foi você quem me trouxe pelas mãos apresentando aquilo que antes eu desconhecia, e está no sorriso que eu levo nos lábios e hoje é tão mais largo do que já foi, está em mim, inteiro em mim, este muito que já fizemos, tudo o que já fomos e a boniteza do quanto queremos ainda ser, o que se perdeu e o que ficou e permanece por teimosia, o que já nos demos, e foi tanta coisa, e ao menos disto eu não duvido, há de permanecer, há de ser para sempre e há de ser sempre bonito seja como for, whatever will be will be e qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer.